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| A SELIC É A PRINCIPAL DETERMINANTE DO VALOR DO DINHEIRO |
Quando as coisas ficam difíceis no orçamento doméstico, o bom senso nos sugere cortar gastos supérfluos, reduzindo a frequência com a qual comemos fora, trocando aquele banho de meia hora por um de 15 minutos, ligando menos o ar condicionado, apenas para citar alguns. Procurar uma forma de aumentar nossa renda fazendo algum trabalho extra ou mesmo partindo para o empreendedorismo também são opções. Quando não há saída, recorremos a empréstimos. Quando não querem nos dar um empréstimo, só nos resta sermos socorridos, seja por um amigo, parente, organização ou pelo próprio Estado.
Antes de falar de Selic, é preciso entender como os governos se financiam.
Os governos, na esmagadora maioria das vezes, gastam mais do que arrecadam e para fechar essa conta precisam de dinheiro extra. Ah, então quando isso acontece o governo corta gastos assim como nós geralmente fazemos? Normalmente não, cortar gastos governamentais costuma ser bastante impopular e custa votos. Sabe aquele seu amigo que está louco para passar em um concurso público federal? Então, imagine o governo cancelando os editais para concursos públicos, certamente não terá o voto do seu amigo na próxima eleição. Imagine aquela construtora que fez doações milionárias para a campanha de um presidente vendo esse mesmo presidente anunciar um corte nas políticas de subsídio de crédito imobiliário. Ou ainda aquele sujeito que foi para as ruas demonstrar a sua paixão pelas propostas de certo político, ver seu cargo de confiança conquistado após a eleição ser riscado do orçamento. Começou a entender o problema? Se o governo for cortar gastos, o mais provável é que ele corte em áreas como educação, saúde e infraestrutura, porque? Porque uma população ignorante e flagelada sempre estará mais receptiva a acreditar que esses mesmos políticos serão capazes de resolver todos os nosso problemas.
Para levantar mais dinheiro, ao governo que não quer reduzir despesas restam praticamente duas opções, aumentar impostos, que já são bastante elevados e, a partir de certo ponto, começam a ter um efeito contrário ao esperado, ou tomar empréstimos, emitindo títulos que funcionam como um cheque pré-datado.
Funciona assim, o governo, através do Tesouro Nacional, assina um cheque (título público) de R$ 1000,00 e lhe oferece esse mesmo cheque por R$ 900,00, com a ressalva de que você só poderá resgatá-lo daqui um certo período, digamos um ano. Sendo assim, dividindo R$ 1000.00 por R$ 900,00 temos uma taxa de juros de 11% a.a. Existem outras modalidade de rendimento, mas vamos nos limitar a analisar apenas esse tipo exposto para não adicionar complexidade demais ao assunto.
Quem pode comprar esses títulos pré-datado do governo? Qualquer agente econômico, porém, o número de pessoas físicas que compram esses títulos ainda é minoria, a maior parte do volume é comprado por um seleto número de bancos escolhidos pelo próprio governo.
O papel dos bancos.
Os títulos em poder dos bancos, além de financiar os déficits do governo, têm uma função bastante especial, são utilizados como garantia na obtenção de empréstimos entre eles. Mas porque os bancos precisam emprestar dinheiro uns dos outros? Porque o governo exige que todo banco retenha um percentual - hoje em 45% - dos depósitos que recebe de seus clientes como forma de controlar o poder que essas instituições tem de multiplicar dinheiro. Esse percentual fica sobre a guarda do Banco Central, em conta corrente especifica de cada banco e é conhecido como depósito compulsório. Por exemplo, quando você deposita R$ 100,00 na sua conta corrente, o dinheiro não fica lá guardado esperando que você o resgate, o banco repassa R$ 45,00 para a conta de compulsórios no Banco Central e empresta o restante para outra pessoa que deposita em outro banco que torna a recolher o compulsório e empresta a diferença em um ciclo que vai se estendendo. Em um dia que sai mais dinheiro do que entra, o percentual depositado junto ao Banco Central precisa ser ajustado. Para isso, o banco procura um empréstimo junto a um ou mais bancos que tiveram mais entradas do que saídas, dando como garantia os títulos públicos que possui. É então que surge a SELIC.
Por lei, esses empréstimos entre bancos, com garantia em títulos públicos só podem durar um dia. Ou seja, o que eu emprestei hoje, dando meus títulos como garantia, eu preciso pagar amanhã. Os juros cobrados nesses empréstimos de um dia entre os bancos é a chamada taxa Selic, que na realidade é diária. Nós nos acostumamos a vê-la anualizada, ou seja, a taxa diária elevada a 252 dias úteis, hoje por exemplo a taxa anualizada de todos os negócios interbancários foi de 14,15% ao ano. O nome SELIC vem do sistema informatizado que controla todas essas operações, chamado de Sistema Especial de Liquidação e Custódia.
A SELIC e você.
É aqui que algo mágico acontece e onde você entra de verdade nessa história. O Banco Central utiliza a taxa SELIC para controlar a quantidade de dinheiro disponível na economia. Para isso, ele estipula uma meta de taxa (hoje em 14,25% a.a) que é a taxa que segundo cálculos do governo, manterá a inflação sobre controle e garantirá o poder de compra do nosso dinheiro. Mais dinheiro na economia acelera a atividade econômica e menos dinheiro faz com que o consumo se retraia, pelo menos no curto prazo. Lembra-se que um título público é um cheque pré-datado? Se você tem um cheque de R$ 1000,00 pelo qual você pagou R$ 900,00 para resgate em um ano, esse seu cheque, como já vimos, lhe rende 11% de juros ao ano. Existem milhares de cheques assim em posse dos bancos, e nem todos eles irão esperar 1 ano para resgatá-lo, muitos irão vendê-los antes do vencimento para cobrir suas necessidades de caixa. Sendo assim, quando a inflação, por exemplo, começa a subir além da faixa prevista pelo governo, o Banco Central entra em ação para tirar dinheiro da praça, vendendo esses "cheques" aos bancos, com isso acontece um excesso de oferta e o preço desses cheques cai. Ora, se antes um cheque que paga R$ 1000,00 valia R$ 900,00 e com o excesso de oferta ele agora vale R$ 850,00 a diferença para os R$ 1000,00 gera uma nova taxa anual de juros de 17%. Essa venda tira recursos da conta que os bancos tem com o Banco Central, com menos recursos nessa conta de depósito compulsório, os bancos reduzem sua capacidade de conceder empréstimo e acabam por elevar as taxas de juros dos novos empréstimos. Com taxas mais altas, financiamentos de casas, carros, empréstimos pessoais e todos os seus derivados ficam mais caros e portanto sofrem redução na procura. Com isso, o Banco Central espera que a inflação volte a ficar sobre controle. Portanto a SELIC é a taxa que vai ancorar todas as outras taxas de juros da economia.
Se a taxa SELIC está atualmente em 14,25% porque pagamos taxas de juros muito mais altas em empréstimos pessoais e outros financiamentos?
Na teoria, os bancos tem a opção de emprestar para o governo (comprando títulos no SELIC) ou para pessoas e empresas. Emprestando para o governo, o risco é zero, o governo sempre poderá "fazer" mais dinheiro para cumprir as suas obrigações. Emprestando para pessoas e empresas há o risco de calote, por isso o banco acrescenta um percentual sobre a taxa SELIC para cobrir o risco, além de despesas administrativas com agências, contratos e outros. Acontece que em um país onde a taxa de um cheque especial pode passar de 150% ao ano, fica difícil acreditar nisso. A verdade é que o nosso setor bancário é muito concentrado e protegido pelo governo, ou seja, temos poucos bancos e a entrada de novos bancos é bastante dificultada, logo, temos pouca concorrência, um ambiente perfeito para que esses bancos cobrem as taxas que desejarem, já percebeu que banco no Brasil nunca está em crise? Claro, com condições assim é praticamente impossível não ganhar dinheiro.
Para finalizar...
Se a taxa SELIC está atualmente em 14,25% porque pagamos taxas de juros muito mais altas em empréstimos pessoais e outros financiamentos?
Na teoria, os bancos tem a opção de emprestar para o governo (comprando títulos no SELIC) ou para pessoas e empresas. Emprestando para o governo, o risco é zero, o governo sempre poderá "fazer" mais dinheiro para cumprir as suas obrigações. Emprestando para pessoas e empresas há o risco de calote, por isso o banco acrescenta um percentual sobre a taxa SELIC para cobrir o risco, além de despesas administrativas com agências, contratos e outros. Acontece que em um país onde a taxa de um cheque especial pode passar de 150% ao ano, fica difícil acreditar nisso. A verdade é que o nosso setor bancário é muito concentrado e protegido pelo governo, ou seja, temos poucos bancos e a entrada de novos bancos é bastante dificultada, logo, temos pouca concorrência, um ambiente perfeito para que esses bancos cobrem as taxas que desejarem, já percebeu que banco no Brasil nunca está em crise? Claro, com condições assim é praticamente impossível não ganhar dinheiro.
Para finalizar...
Na próxima vez que você ligar a televisão e ouvir no telejornal que o governo decidiu aumentar a taxa de juros, poderá deduzir automaticamente que o que ele fez foi reduzir a capacidade dos bancos em conceder empréstimos, enxugando dinheiro da economia. O contrário, quando o governo reduzir a meta da taxa Selic, estará injetando dinheiro na economia, acelerando a atividade econômica. Como já tratado em uma postagem anterior, aumentar por si só a quantidade de dinheiro na economia não garantirá crescimento sustentável, é preciso que um conjunto de fatores esteja favorável para que isso ocorra.
O maior mal de uma economia onde as taxas de juros são elevadas é que o governo se torna um competidor desleal na absorção de recursos. Os empresários muitas vezes preferem direcionar seus lucros para a compra de títulos do governo em vez de investir em expansão dos seus negócios que é o que gera empregos e dependendo da oferta de mão de obra, aumento de salários. É muito mais garantido deixar o dinheiro rendendo junto ao governo do que arriscar investir na atividade produtiva, pois os títulos praticamente não apresentam risco de perdas. Os depósitos que os bancos recebem, também poderiam ser direcionados a financiar o setor produtivo da sociedade, mas em vez disso, com taxas tão altas e sem risco o melhor negócio para eles é financiar os gastos do governo.
Em resumo, para o governo, os títulos públicos são a sua principal forma de financiar gastos excedentes e para o Banco Central, que é o guardião da moeda, através da manipulação da taxa SELIC, são a sua mais importante ferramenta para controle da inflação. Temos então um dos mais importantes instrumentos de política econômica de um país.
Dúvidas, sugestões? Deixe seu comentário. Um grande abraço.
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