Se a primeira
imagem que vem a sua cabeça quando você escuta a palavra especulador for a de
um sujeito inescrupuloso, frio e oportunista, você não está sozinho(a). Hollywood
adora reforçar esse estereótipo com homens vestindo ternos italianos e fazendo
fortuna do dia para noite ao se aproveitarem da “inocência” de outros agentes
econômicos.
Como em
economia, nem sempre a vida imita a arte, o papel de um especulador financeiro
é muito mais amplo e nem sempre tão terrível como quer acreditar o senso comum.
Vamos começar definindo o que é um especulador até chegarmos finalmente no
papel de um especular financeiro.
Quando eu era
adolescente, costumava ir muito ao nosso vizinho Paraguai para passar o final
de semana e eventualmente comprar algumas bugigangas longe da voracidade do
fisco brasileiro (apesar do máximo de US$ 150 sem tributação na época). Antes de comprar
qualquer coisa meu pai sempre me dizia: Vamos dar uma especulada nos preços. Naquele momento, nos tornávamos especuladores
no sentido de estudar com minúcia as diversas ofertas do mesmo bem. Não há nada de mal em ser um especulador nesse
sentido.
Um colega de
trabalho “bem-intencionado” lhe alerta: “Ouvi falar que vão demitir duas
pessoas de cada setor, se eu fosse você já começaria a me mexer”. Você como já
conhece a fama do colega responde: “Isso é pura especulação, vá trabalhar”.
Nesse sentido, a especulação é direcionada a iludir alguém a fim de prejudicá-la.
Vamos avançar
um pouco mais em direção a definição de um especulador financeiro, algo um
pouco mais próximo daquilo que vemos nos filmes, pessoas gritando na bolsa de valores
como se estivessem no coliseu, gráficos de preços que mais parecem cardiogramas
entre outras coisas. Antes, porém, vamos imaginar uma situação real onde nós, pessoas
comuns nos tornamos especuladores financeiros.
Você já possui
um veículo, não tem interesse em trocá-lo, mas ouviu no jornal que na semana
que vem o governo pretende assinar uma medida que elevará a alíquota de IPI de
veículos novos em 25%. Você pensa com os seus botões: Se os carros novos terão
uma alíquota maior de impostos, então ficarão mais caros, se ficarão mais
caros, haverá uma procura maior por carros usados, consequentemente, haverá um
aumento no preço dos carros usados por conta procura maior.
Um amigo seu
que não viu o jornal e, portanto, não sabe do aumento de alíquota lhe diz: “Cara,
não sabe de alguém que esteja querendo comprar meu carro? Coloquei roda, som e bancos
de couro, mas estou pedindo o preço médio de tabela”. Vamos considerar aqui que
todos os veículos usados sejam negociados a preço de tabela para fins de
simplificação. Eis então que seu espírito especulador adormecido desperta, você
faz uma conta rápida: Estou com uma grana na poupança que está me rendendo uma
merreca, peço uma grana emprestada da minha sogra (que roubada), vendo a
televisão da sala, compro esse carro e assim que o imposto subir e afetar o
preço dos usados eu o revendo com lucro, recompro a televisão, pago a sogra,
recapitalizo a poupança e ainda me sobra algum para curtir a vida”.
O exemplo
anterior mostra a essência de um especulador financeiro. O especulador
financeiro negocia um bem pelo qual ele não tem interesse no benefício intrínseco,
ou seja, ele não está interessado no carro em si, está interessado apenas na
possível variação de preço que esse carro pode apresentar, segundo suas
previsões, e do lucro que ele pode auferir, aceitando para isso um risco, no
caso anterior, do governo voltar atrás no aumento do IPI. Mas e aquele sujeito
que compra um carro de um amigo que está em dificuldade financeira, por um
valor muito abaixo do valor de mercado para em seguida revende-lo por um preço
mais elevado, ele também é um especulador? Nesse caso não, trata-se de um
arbitrador, alguém que explora diferença de preços em mercados diferentes, mas
isso é assunto para outro artigo.
JUNTANDO AS PARTES
Já vimos que
um especulador é alguém que compra um bem (vamos chamar de ativo) na
expectativa de lucrar com a variação de seu preço. É importante destacar que
isso está longe de se parecer com a compra de um bilhete de loteria premiado.
Ao comprar um ativo com a expectativa de que seu preço possa subir, nada impede
que o contrário aconteça e então seja realizado prejuízo. Portanto, um
especulador é alguém que assume riscos em troca de uma expectativa de lucro.
Se há um tomador
de risco também há alguém que pretende se proteger do risco, esses são os
chamados hedgers. São agentes que querem se proteger da variação dos preços dos
ativos que negociam. Imagine um produtor de soja que está na iminência de
colher a sua safra, para tal, ele empenhou recursos e contraiu dividas para a
compra de maquinário, insumos, pagamento de pessoa, entre outras despesas.
Calculando que venderá sua safra pelo preço atual da soja, ele verifica que
conseguirá cobrir os custos e auferir uma margem de lucro satisfatória. Mas o
que acontece se o preço da soja despencar no mercado mundial? O produtor terá
um prejuízo que dependendo da intensidade, poderá levá-lo a falência. O produtor
(hedger) vai até o seu corretor e negocia um contrato onde ele transfere para
outro agente (especulador) o risco da variação do preço em troca de um certo
valor.
Transferindo o
risco para outro agente, o produtor estará protegido de qualquer flutuação no
preço da soja, seja essa flutuação positiva ou negativa. Se o preço da soja
subir, ele não ganhará nada a mais, porém, se cair, ele não perderá nada. O
especulador que aceitou tomar esse risco ganhará caso o preço da soja se eleve
e perderá caso o preço da soja caia (na prática, especuladores podem ganhar
tanto na alta quanto na baixa, graças a complexos instrumentos financeiros).
VANTAGENS E DESVANTAGENS DA ESPECULAÇÃO E O CASO DO FEIJÃO NO BRASIL.
Como vimos
anteriormente, para que alguém se proteja de um risco, alguém deve assumi-lo e
ninguém o fará se não espera ganhar algo em troca. Vamos usar o caso do feijão
no Brasil, onde 1 kg do produto já está saindo mais caro que de 5kg de arroz.
Uma vantagem
da especulação diz respeito a liquidez e a eficiência que ela traz ao mercado.
Liquidez diz respeito ao quão fácil é comprar e vender um determinado produto.
Se eu sou produtor de feijão e tenho apenas um comprador, uma guerra será travada,
eu vou dizer que quero vender o meu produto a R$ 4,00/kg e o comprador dirá que
só fechará negócio se eu fizer por R$ 1,00/kg. Se eu vender ao preço que ele
quer, terei prejuízo, se ele comprar ao preço que eu quero, ele terá prejuízo.
Esse é o caso de um mercado onde não há liquidez, ou seja, há dificuldade em
comprar e vender. A especulação aumenta tanto o número de compradores quanto o
de vendedores, trazendo liquidez e eficiência ao preço.
Estamos
passando por uma quebra na safra de feijão no Brasil. Isso fez com que os
preços subissem muito. Quando se trata do preço de alimentos, a especulação
pode se desvirtuar do princípio de trazer liquidez e eficiência ao mercado,
trazendo, em vez disso, aumentos de preços ainda mais devastadores. Restrições à
importação por exemplo podem fazer com que a alta de preços persista por um
tempo ainda maior. Quando os preços dos alimentos sobem, os que mais sofrem
(como sempre) são os mais pobres. Pois estes gastam grande parte de suas rendas
em alimentação, ou seja, são impactados diretamente pela inflação dos
alimentos.
No mundo
perfeito, ao preverem uma quebra na safra, especuladores começariam a comprar
contratos do produto, fazendo com que seu preço subisse, a alta do preço
despertaria o interesse de novos agentes em plantar mais feijão e até mesmo a
importar o produto, um aumento na oferta garantiria redução ou mesmo equilíbrio
dos preços. Se a especulação, no entanto, for excessiva, o aumento de preços
pode trazer fome e sofrimento a população mais pobre antes mesmo que o equilíbrio
chegue. Por isso, em muitos países, existem leis que restringem a ação irresponsável
de especuladores.
Com o preço do
feijão nas alturas, muitas apostas estão sendo feitas, seja no sentido de que o
preço continuará a subir, quanto no sentido de que o preço irá cair. Certamente
pessoas que nunca pensaram em plantar feijão já estão considerando a ideia,
isso, na teoria, elevará a oferta do produto, reduzindo seu preço a um novo equilíbrio.
O impacto na oferta deve levar algum tempo, visto que o ciclo de produção,
dependendo a espécie, pode levar até 90 dias. Eu já fiz o meu plantio, estou só aguardando a colheita.
E se o governo fixasse o preço do feijão, não seria a melhor solução? A história mostra que
não, o que aconteceria no caso de uma quebra de safra como a que estamos
passando é que o estoque de feijão que já está reduzido seria consumido
rapidamente e não haveria interesse algum de que novos agentes assumissem
riscos com a importação ou produção extra do produto. Quem garantirá que após
chegar a sua importação, ou que após a colheita do feijão que você empenhou
recursos para produzir o governo não fixará preços ainda menores. A ação
governamental nesses casos acaba levando na maioria das vezes a escassez ainda
maior dos bens.
A especulação
financeira tem um papel importante ao assumir os riscos que de outra forma
comprometeriam o empenho dos agentes do setor produtivo. Como toda moeda tem
dois lados, é preciso uma certa dose de cuidado e regulação para que não haja
excessos que acabam, na grande maioria das vezes, por prejudicar as pessoas que
menos podem se defender.
Dúvidas,
sugestões, comentários? Participem nos comentários. Abraços.


