sábado, 18 de junho de 2016

O QUE É UM ESPECULADOR FINANCEIRO? E PORQUÊ VOCÊ PODE SER UM DELES!





Se a primeira imagem que vem a sua cabeça quando você escuta a palavra especulador for a de um sujeito inescrupuloso, frio e oportunista, você não está sozinho(a). Hollywood adora reforçar esse estereótipo com homens vestindo ternos italianos e fazendo fortuna do dia para noite ao se aproveitarem da “inocência” de outros agentes econômicos.


Como em economia, nem sempre a vida imita a arte, o papel de um especulador financeiro é muito mais amplo e nem sempre tão terrível como quer acreditar o senso comum. Vamos começar definindo o que é um especulador até chegarmos finalmente no papel de um especular financeiro.


Quando eu era adolescente, costumava ir muito ao nosso vizinho Paraguai para passar o final de semana e eventualmente comprar algumas bugigangas longe da voracidade do fisco brasileiro (apesar do máximo de US$ 150 sem tributação na época). Antes de comprar qualquer coisa meu pai sempre me dizia: Vamos dar uma especulada nos preços.  Naquele momento, nos tornávamos especuladores no sentido de estudar com minúcia as diversas ofertas do mesmo bem.  Não há nada de mal em ser um especulador nesse sentido.


Um colega de trabalho “bem-intencionado” lhe alerta: “Ouvi falar que vão demitir duas pessoas de cada setor, se eu fosse você já começaria a me mexer”. Você como já conhece a fama do colega responde: “Isso é pura especulação, vá trabalhar”. Nesse sentido, a especulação é direcionada a iludir alguém a fim de prejudicá-la. 


Vamos avançar um pouco mais em direção a definição de um especulador financeiro, algo um pouco mais próximo daquilo que vemos nos filmes, pessoas gritando na bolsa de valores como se estivessem no coliseu, gráficos de preços que mais parecem cardiogramas entre outras coisas. Antes, porém, vamos imaginar uma situação real onde nós, pessoas comuns nos tornamos especuladores financeiros.


Você já possui um veículo, não tem interesse em trocá-lo, mas ouviu no jornal que na semana que vem o governo pretende assinar uma medida que elevará a alíquota de IPI de veículos novos em 25%. Você pensa com os seus botões: Se os carros novos terão uma alíquota maior de impostos, então ficarão mais caros, se ficarão mais caros, haverá uma procura maior por carros usados, consequentemente, haverá um aumento no preço dos carros usados por conta procura maior.


Um amigo seu que não viu o jornal e, portanto, não sabe do aumento de alíquota lhe diz: “Cara, não sabe de alguém que esteja querendo comprar meu carro? Coloquei roda, som e bancos de couro, mas estou pedindo o preço médio de tabela”. Vamos considerar aqui que todos os veículos usados sejam negociados a preço de tabela para fins de simplificação. Eis então que seu espírito especulador adormecido desperta, você faz uma conta rápida: Estou com uma grana na poupança que está me rendendo uma merreca, peço uma grana emprestada da minha sogra (que roubada), vendo a televisão da sala, compro esse carro e assim que o imposto subir e afetar o preço dos usados eu o revendo com lucro, recompro a televisão, pago a sogra, recapitalizo a poupança e ainda me sobra algum para curtir a vida”. 


O exemplo anterior mostra a essência de um especulador financeiro. O especulador financeiro negocia um bem pelo qual ele não tem interesse no benefício intrínseco, ou seja, ele não está interessado no carro em si, está interessado apenas na possível variação de preço que esse carro pode apresentar, segundo suas previsões, e do lucro que ele pode auferir, aceitando para isso um risco, no caso anterior, do governo voltar atrás no aumento do IPI. Mas e aquele sujeito que compra um carro de um amigo que está em dificuldade financeira, por um valor muito abaixo do valor de mercado para em seguida revende-lo por um preço mais elevado, ele também é um especulador? Nesse caso não, trata-se de um arbitrador, alguém que explora diferença de preços em mercados diferentes, mas isso é assunto para outro artigo.



JUNTANDO AS PARTES



Já vimos que um especulador é alguém que compra um bem (vamos chamar de ativo) na expectativa de lucrar com a variação de seu preço. É importante destacar que isso está longe de se parecer com a compra de um bilhete de loteria premiado. Ao comprar um ativo com a expectativa de que seu preço possa subir, nada impede que o contrário aconteça e então seja realizado prejuízo. Portanto, um especulador é alguém que assume riscos em troca de uma expectativa de lucro.


Se há um tomador de risco também há alguém que pretende se proteger do risco, esses são os chamados hedgers. São agentes que querem se proteger da variação dos preços dos ativos que negociam. Imagine um produtor de soja que está na iminência de colher a sua safra, para tal, ele empenhou recursos e contraiu dividas para a compra de maquinário, insumos, pagamento de pessoa, entre outras despesas. Calculando que venderá sua safra pelo preço atual da soja, ele verifica que conseguirá cobrir os custos e auferir uma margem de lucro satisfatória. Mas o que acontece se o preço da soja despencar no mercado mundial? O produtor terá um prejuízo que dependendo da intensidade, poderá levá-lo a falência. O produtor (hedger) vai até o seu corretor e negocia um contrato onde ele transfere para outro agente (especulador) o risco da variação do preço em troca de um certo valor.


Transferindo o risco para outro agente, o produtor estará protegido de qualquer flutuação no preço da soja, seja essa flutuação positiva ou negativa. Se o preço da soja subir, ele não ganhará nada a mais, porém, se cair, ele não perderá nada. O especulador que aceitou tomar esse risco ganhará caso o preço da soja se eleve e perderá caso o preço da soja caia (na prática, especuladores podem ganhar tanto na alta quanto na baixa, graças a complexos instrumentos financeiros).


VANTAGENS E DESVANTAGENS DA ESPECULAÇÃO E O CASO DO FEIJÃO NO BRASIL.


Como vimos anteriormente, para que alguém se proteja de um risco, alguém deve assumi-lo e ninguém o fará se não espera ganhar algo em troca. Vamos usar o caso do feijão no Brasil, onde 1 kg do produto já está saindo mais caro que de 5kg de arroz. 


Uma vantagem da especulação diz respeito a liquidez e a eficiência que ela traz ao mercado. Liquidez diz respeito ao quão fácil é comprar e vender um determinado produto. Se eu sou produtor de feijão e tenho apenas um comprador, uma guerra será travada, eu vou dizer que quero vender o meu produto a R$ 4,00/kg e o comprador dirá que só fechará negócio se eu fizer por R$ 1,00/kg. Se eu vender ao preço que ele quer, terei prejuízo, se ele comprar ao preço que eu quero, ele terá prejuízo. Esse é o caso de um mercado onde não há liquidez, ou seja, há dificuldade em comprar e vender. A especulação aumenta tanto o número de compradores quanto o de vendedores, trazendo liquidez e eficiência ao preço.


Estamos passando por uma quebra na safra de feijão no Brasil. Isso fez com que os preços subissem muito. Quando se trata do preço de alimentos, a especulação pode se desvirtuar do princípio de trazer liquidez e eficiência ao mercado, trazendo, em vez disso, aumentos de preços ainda mais devastadores. Restrições à importação por exemplo podem fazer com que a alta de preços persista por um tempo ainda maior. Quando os preços dos alimentos sobem, os que mais sofrem (como sempre) são os mais pobres. Pois estes gastam grande parte de suas rendas em alimentação, ou seja, são impactados diretamente pela inflação dos alimentos.


No mundo perfeito, ao preverem uma quebra na safra, especuladores começariam a comprar contratos do produto, fazendo com que seu preço subisse, a alta do preço despertaria o interesse de novos agentes em plantar mais feijão e até mesmo a importar o produto, um aumento na oferta garantiria redução ou mesmo equilíbrio dos preços. Se a especulação, no entanto, for excessiva, o aumento de preços pode trazer fome e sofrimento a população mais pobre antes mesmo que o equilíbrio chegue. Por isso, em muitos países, existem leis que restringem a ação irresponsável de especuladores.


Com o preço do feijão nas alturas, muitas apostas estão sendo feitas, seja no sentido de que o preço continuará a subir, quanto no sentido de que o preço irá cair. Certamente pessoas que nunca pensaram em plantar feijão já estão considerando a ideia, isso, na teoria, elevará a oferta do produto, reduzindo seu preço a um novo equilíbrio. O impacto na oferta deve levar algum tempo, visto que o ciclo de produção, dependendo a espécie, pode levar até 90 dias. Eu já fiz o meu plantio, estou só aguardando a colheita.




E se o governo fixasse o preço do feijão, não seria a melhor solução? A história mostra que não, o que aconteceria no caso de uma quebra de safra como a que estamos passando é que o estoque de feijão que já está reduzido seria consumido rapidamente e não haveria interesse algum de que novos agentes assumissem riscos com a importação ou produção extra do produto. Quem garantirá que após chegar a sua importação, ou que após a colheita do feijão que você empenhou recursos para produzir o governo não fixará preços ainda menores. A ação governamental nesses casos acaba levando na maioria das vezes a escassez ainda maior dos bens.


A especulação financeira tem um papel importante ao assumir os riscos que de outra forma comprometeriam o empenho dos agentes do setor produtivo. Como toda moeda tem dois lados, é preciso uma certa dose de cuidado e regulação para que não haja excessos que acabam, na grande maioria das vezes, por prejudicar as pessoas que menos podem se defender.



Dúvidas, sugestões, comentários? Participem nos comentários. Abraços.

domingo, 27 de março de 2016

ALEGRIA DE POBRE DURA POUCO - A ATUAL CRISE ECONÔMICA BRASILEIRA



O provérbio português - Alegria de pobre dura pouco - retrata, de uma forma bastante infeliz, a atual conjuntura econômica brasileira. O motivo é óbvio, muitas das políticas “bem-intencionadas”, supostamente favoráveis aos mais pobres, acabam por fazer com que eles mesmos paguem um preço alto, tornando o ônus muito maior que o bônus.

Quem não se lembra, em um passado bem recente de ouvir frases como "Agora o pobre pode andar de avião" ou "Agora o pobre pode comprar a sua casa própria" ou ainda "O pobre agora tem condições de comprar o seu carro zero"? De fato, vimos esses acontecimentos. E não foram apenas os mais pobres os beneficiados. A classe média nunca viajou tanto ao exterior, na volta, malas abarrotadas de compras graças ao real apreciado. Os ricos então, ficaram muito mais ricos, lembram-se do Eike Batista? Teria o Brasil encontrado a fórmula mágica para dissolver as amarras da desigualdade? 

Foi difícil para muitos acreditar em algo diferente disso. Veja abaixo o gráfico do desemprego desde de 2010. Tivemos taxas baixíssimas, chegamos a 4,30% no final de 2014. Um feito incrível.


O salário mínimo passou de R$ 510,00 em 2010 para R$ 724,00 em 2014. Um alta de 42%. Houve ganho real de renda, uma vez que a inflação nesse período ficou em 34,5%.

  •         Céu de brigadeiro

O Brasil do futuro havia chegado. A renda estava em alta, o desemprego em uma espiral descendente, as pessoas agora tinham acesso a bens de consumo e serviços que outrora estavam inacessíveis. O fantasma da inflação estava domado, a migração para estratos sociais mais elevados parecia um movimento irreversível. O mundo inteiro estava de olho nesse milagre.

Capa da britânica The Economist - Brasil Decola
 
Em momentos de grande euforia geralmente nos esquecemos de refletir sobre alguns aspectos fundamentais da teoria econômica: Como podemos ter ficado em situação tão favorável se problemas seculares ainda não foram resolvidos no país? A educação, a produtividade e o investimento não tiveram avanços tão significativos para justificar uma melhora de condição de vida tão expressiva.
  
Alguma coisa não fecha nessa equação. É impossível haver crescimento sustentável sem uma base sustentável. Só há crescimento econômico com poupança e investimentos. É preciso que tenhamos avanços em tecnologia e educação, e nesses pontos o nosso Brasil é muito parecido com o que sempre foi. De onde estão vindo os recursos para financiar essa expansão do consumo? Em 2014 por exemplo, a soma de todas as riquezas geradas no país cresceu apenas 0,1% em relação a 2013. Como conseguimos dinheiro para sediar copa do mundo, aumentar salários e dar a população a vida mais digna (em matéria de consumo) que estavam tendo? Mais estranho ainda é responder a essas perguntas em um contexto onde o preço dos produtos que o Brasil exporta (minério de ferro, petróleo, soja, milho, etc) só fez cair nos últimos anos.


  •  Pagamento parcial da fatura
 
Sabe quando você recebe a fatura do seu cartão crédito e há a opção e pagar apenas o mínimo e rolar o restante da dívida para o próximo mês? Você sabe que os juros dessa operação são astronômicos, mas mesmo assim continua gastando e rolando a dívida.

Foi exatamente isso que o governo fez durante o período que antecedeu a crise atual (e continua a fazer). A diferença entre o que o governo arrecada (com impostos por exemplo) e o que ele gasta (com hospitais, escolas, investimentos, programas sociais, etc.), quando positivo, é chamado de superávit e quando negativo é chamado de déficit.

O governo geralmente gasta mais do que arrecada, já que ele pode, quase sempre, rolar a sua dívida e expandi-la ainda mais. Para gastar mais do que arrecada, o governo precisa de agentes dispostos a lhe emprestar dinheiro, precisa captar recursos junto a poupadores nacionais e internacionais, pois aumentar receitas via impostos tem limites, principalmente aqui, onde eles já são bastante elevados.

A dívida bruta do governo "no cartão de crédito", fechou 2015 em 3,9 trilhões de reais. Pergunto, você continuaria a emprestar dinheiro para alguém cuja dívida só aumenta? Para continuar emprestando ao governo, os agentes exigem que ele demonstre preocupação com a sua capacidade de pagamento. Para isso, os credores esperam que o governo faça o chamado superávit primário. Eu explico, gerar superávit primário significa arrecadar mais do que se gasta, excluindo dos gastos os juros com a dívida. Ou seja, espera-se que o governo faça uma economia para pagar pelo menos parte dos juros da dívida. 

Você já deve ter visto algumas pessoas mais radicais defendendo que o governo deveria dar o calote na dívida pública e direcionar esse dinheiro com juros para a melhoria de vida da população brasileira. Seria como não pagar a conta de energia e agua da sua casa e acreditar que o fornecimento fosse mantido, pior ainda, que a sua credibilidade na hora de pedir mais crédito ficasse inabalada junto aos credores. 

Quem são esses detentores da dívida pública brasileira? Seriam especuladores inescrupulosos e sanguessugas do dinheiro público que deveria ser direcionado para a garantia do bem-estar da população? As vezes tentam nos convencer que sim, mas o que é certo é que aquele dinheiro economias que você deixa investido no banco é uma parcela dos recursos que financia a dívida pública. Não sabia? Pois é, se você tem dinheiro investido no banco, muito provavelmente você é um dos financiadores da dívida pública. Que tal o governo dar um calote na dívida e deixar você sem um centavo das suas economias de uma vida inteira? Não parece tão legal quanto dar calote em especuladores e sanguessugas, não é?

Outro equívoco comum é comparar a proporção da dívida pública brasileira com outros países desenvolvidos.  Mesmo que a nossa proporção seja menor, o custo de manter a nossa dívida é muito mais elevado, pois temos uma das maiores taxas de juros do mundo. 


  • Montando o quebra-cabeças da crise atual
 
Vejam no gráfico abaixo que a partir de 2011 o governo começa a reduzir a economia feita para pagar os juros da dívida. Em 2014 a diferença entre o que foi arrecadado e o que foi gasto, antes do pagamento dos juros, já havia ficado negativo em 33 bilhões de reais. Em 2015 a diferença foi de 111 bilhões de reais.


O gráfico abaixo mostra como o endividamento do governo aumentou significativamente a partir de 2013. Lembrando que em 2014 o crescimento da economia foi praticamente nulo, apenas 0,1% e em 2015 o resultado foi negativo em 3,8%. O mercado espera para 2016 uma redução de 3,6% no montante de riqueza gerada no país. Será o segundo ano consecutivo de retração econômica. 




Como o governo conseguiu manter a inflação sob controle em um cenário de baixo crescimento e consumo elevado? O segredo está nos preços administrados. A inflação é composta por dois tipos de preços, os livres que sobem em descem por conta da lei da oferta e da demanda como alimentos, automóveis, aluguéis, eletrônicos, serviços de telefonia, entre outros e os administrados, que não sofrem flutuação por conta de oferta e demanda, são eles os preços de energia elétrica, combustíveis, pedágios e outros.


Vamos usar como exemplo de preços administrados o preço da gasolina. Para conter a inflação, principalmente antes do período eleitoral, o governo congelou o repasse de preço dos combustíveis, uma vez que é o acionista majoritário da Petrobras. Como os combustíveis são um componente muito importante na determinação da inflação, esse congelamento fez com que a inflação ficasse acomodada artificialmente. Ao congelar o preço dos combustíveis quem pagou o preço foi a Petrobras, que se viu obrigada a importar petróleo por um preço mais elevado e revender os seus derivados por um preço mais baixo no mercado interno, deteriorando o caixa da empresa. 

  • O papel dos bancos públicos
 
Como fazer a população gastar mais? O primeiro passo foi dado, aumentando o salário mínimo, mas isso não é suficiente. Para comprar bens de valor agregado mais elevado como automóveis e casas é preciso uma força maior. Essa força vem na forma de subsídio ao crédito. No Brasil o meio mais rápido de colocar dinheiro na mão das pessoas é concedendo-lhes crédito, principalmente via bancos públicos. Quando você pensa em financiar a casa própria, não pensa logo em Caixa Econômica Federal? Quando uma indústria pensa em dinheiro barato, pensa logo em BNDES.


Onde o governo consegue esse dinheiro para emprestar com juros relativamente baixos? Ele pega emprestado, principalmente dos bancos onde nós deixamos as nossas economias poupadas. Investidores estrangeiros também emprestam dinheiro ao governo em busca de uma rentabilidade dificilmente encontrada em outra parte do mundo. O Brasil é um paraíso para os rentistas.
 
Aqui é onde a mágica, para não dizer tragédia, acontece. O governo toma recursos emprestado a uma taxa de juros extremamente elevada e concede crédito a uma taxa muito menor. Quem paga essa diferença então? Acertou quem disse nós mesmos, o povo. Para pagar essa diferença de juros é que o governo precisa gerar superávit primário, deixando de gastar com educação, estradas, hospitais e toda sorte de outras coisas. Por isso a dívida do governo só cresce. 

  • A tempestade perfeita



Vamos recapitular. Anteriormente ao agravamento da crise, o governo vinha gastando mais, arrecadando menos, segurando artificialmente o avanço da inflação e estimulando o consumo através da concessão de crédito subsidiado. Quem não se lembra do bônus para adquirir a casa própria pelo programa minha casa minha vida e das isenções de IPI para aquisição de veículos zero quilômetro?


As sementes para a atual crise econômica já estavam plantadas e em estágio avançado de germinação. A China, o maior mercado consumidor de produtos brasileiros já não vinha crescendo ao mesmo ritmo de antes. Mudanças estruturais anunciadas pelo governo chinês davam conta de que aquele crescimento de dois dígitos dificilmente aconteceria novamente. Aliado a uma menor demanda, o preço dos produtos que o Brasil exporta estavam em queda livre. O modelo de crescimento econômico brasileiro sustentado pelo consumo já dava sinais de esgotamento e a situação fiscal do país só piorava à medida que os gastos passaram a superar a arrecadação.

Para piorar um pouco mais a situação, a economia dos Estados Unidos começou a dar sinais de melhora. Com isso, os investidores começam a tirar o dinheiro investido em países emergentes e o direcionam para a proteção oferecida pelos títulos americanos. O primeiro grande efeito disso é a desvalorização do real frente ao dólar.

Com um real mais fraco frente ao dólar, os produtos importados ficam mais caros, impulsionando a inflação. Passado o momento eleitoral o governo promove um forte ajuste nos preços administrados, a inflação então dispara.

Os investidores (aqueles que emprestam dinheiro para financiar o governo) começam a perceber que a capacidade de pagamento do governo brasileiro pode estar a perigo, na sequência, agências classificadoras de riscos rebaixam a dívida do Brasil para grau especulativo, onde há risco real de calote. Com esse selo de mal pagador, os investidores exigem que o Brasil pague taxas de juros ainda maiores para compensar os riscos. Com taxas de juros mais altas, o consumo desacelera e os investimentos também, a desconfiança toma conta de todos os agentes da economia.

As empresas, que já não podem contar com a expansão da renda dos consumidores, promovem demissões para continuar sobrevivendo, as pessoas acabam consumindo menos com receio de que possam ficar desempregas, a inadimplência aumenta, construtoras e montadoras de veículos se vêm sem chão à medida que os juros e a inadimplência crescem, fazendo cair suas vendas de forma exponencial. Os bancos, com receio de que os tomadores não honrem seus empréstimos, restringem ao máximo a concessão de novos créditos.

Além de todos esses problemas, o governo encontra uma grande resistência ao pacote de ajustes fiscais. É como se o congresso dissesse “Você fez a bagunça, agora se vire”. No final das contas, somos todos nós quem iremos pagar essa conta. Os mais pobres serão mais uma vez os mais prejudicados, pois estes não dispõem de instrumentos de proteção contra a inflação e sua renda é muitas vezes 100% destinada ao consumo de produtos básicos para a sobrevivência.

A lição a ser aprendia é: Sempre que prometerem o céu sem a passagem pelo purgatório, lembre-se que a escala pelo inferno será inevitável. A melhoria das condições de vida dos brasileiros só virá com investimentos, responsabilidade fiscal e valorização da educação.