quinta-feira, 29 de outubro de 2015

COMPRAR OU ALUGAR UMA CASA?

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu um comentário do tipo: "Não tem nem uma casa pra morar e está comprando um carro novo" ou então: "Quem casa quer casa". Para nós brasileiros, lutar para adquirir um imóvel parece ser a escolha mais óbvia e menos contestada que existe. Mas será que realizar o sonho da casa própria é sempre um bom negócio? É o que vamos tentar descobrir.

Se você, assim como eu, nasceu na década de 80, posso afirmar sem sombra de dúvida que nós não sabemos o que é inflação de verdade. Éramos crianças quando em 1994 a inflação começou a ser domada. Agora, se você nasceu na metade anos 70 ou antes, então você já começa a se encaixar em um perfil mais "escaldado" e como diz o ditado, gato escaldado tem medo até de água fria.

O que essa história tem a ver com imóveis? Tudo! Eu cresci ouvindo dos meus pais sobre a importância de termos a nossa casa própria, da segurança de um lugar onde podemos chamar de nosso e de onde ninguém pode nos tirar. Inúmeras vezes eles destacavam o fato de que pagar aluguel significava rasgar dinheiro, algo que você pagava e não retornava nunca. Além disso, vários eram os exemplos de pessoas que compraram suas casas por um valor X e depois de alguns anos as venderam por 3 ou 5 vezes o valor que pagaram, ao passo que os que viviam pagando aluguel não tinham nada. Por isso, o objetivo primordial na vida de qualquer pessoa deveria ser fugir do aluguel e conquistar a casa própria.

Você deve estar se perguntando onde a inflação, o gato escaldado e os meus pais se unem para explicar a decisão de comprar ou alugar um imóvel. Vamos então juntar as peças desse quebra-cabeças e responder uma pergunta anterior importante: Por que os brasileiros gostam tanto de "investir" em imóveis?

Antes do lançamento do plano real em 1994, o Brasil conviveu com taxas de inflação inimagináveis para os dias de hoje. As pessoas tinham que receber seus salários e correr aos super mercados, pois os preços subiam como foguetes. Muitas vezes você estava na gôndola e tinha que ser rápido para conseguir pegar o produto antes que o remarcador de preço chegasse até ele. Não obstante a inflação nas alturas, em 1990 o presidente Collor promoveu um confisco do dinheiro daqueles que aplicavam na poupança. Ou seja, seu dinheiro era atacado de todos os lados.

Com inflação beirando a estratosfera, confisco da poupança, instabilidades econômica, onde seu dinheiro poderia estar seguro? Acertou quem disse em imóveis. Você pode tocar no seu imóvel, ele não está depositado em um banco, onde com apenas um botão alguém possa tomá-lo como fez o presidente Collor. Se você perdesse seu emprego, poderiam te tirar tudo, menos a sua casa. Além disso, o preço dos imóveis tende a se corrigir com a inflação, protegendo o valor real do seu patrimônio. Com isso, os imóveis eram vistos como um porto seguro. Essa ideia de porto seguro ficou tão fortemente enraizada na cultura do brasileiro que mesmo hoje em dia, vivendo em um contexto bastante diferente, ela persiste. Quem viveu e foi escaldado naquela época, tem medo até de água fria independentemente do quadro econômico.

Agora que já sabemos o porque dos brasileiros gostarem tanto de imóveis, vamos avançar e analisar algumas ideias.

Ao deixar de pagar aluguel e financiar um imóvel, estou pagando o que é meu.

Esse é um dos equívocos mais comuns. Ao deixar de pagar aluguel e fazer um financiamento, você deixou de pagar aluguel para uma pessoa ou imobiliária e passou a pagar aluguel para o banco. Apenas uma pequena parcela do valor mensal do seu financiamento é destinada a pagar (amortizar) o valor emprestado de fato. Enquanto você estiver pagando o financiamento, o imóvel não é seu, ele é do banco. Se você ficar inadimplente com o banco, independentemente do número de parcelas que já pagou, você estará sujeito a ser despejado, sua casa será colocada a venda por valor de mercado e muito provavelmente você ficará com uma dívida residual a pagar.

De qualquer forma, quando terminar de pagar o financiamento, serei dono do meu imóvel.

Fato. Após pagar por um financiamento de 30 anos, você terá um imóvel que já tem 30 anos. Na hora de vendê-lo, não fará muito sentido comparar o preço dele com o preço daquela casa novinha que saiu no seu bairro.

Imóvel se valoriza sempre

Essa é uma crença que ganhou força nos últimos 10 anos. Na década de 80 por exemplo, com a hiperinflação, os imóveis em geral perderam valor. Nos últimos anos, com o aumento da renda e principalmente de políticas de estímulo ao crédito, os imóveis se valorizaram muito. Com o fim desse ciclo de expansão, o que se tem visto mais recentemente é um excesso de imóveis e uma pressão negativa sobre os preços.

Vejam no gráfico abaixo como nos últimos 12 meses o preço dos imóveis na cidade de São Paulo tem perdido consistentemente para a inflação (IPCA).




 A valorização dos imóveis depende principalmente da conjuntura econômica do país, do nível de renda das pessoas e da política de concessão de crédito. Valorização passada não serve como base para garantir valorização futura.

Vou financiar um imóvel, alugá-lo e pagar as parcelas com o aluguel que receber.

Isso se chama alavancagem, seria muito bom se não oferecesse grandes riscos e principalmente se não fosse ilegal. Ao fazer um financiamento residencial, pressupõe-se por contrato que ele seja usado para moradia do contratante. Ao alugar esse imóvel, você está colocando o inquilino sobre um grande risco - muitas vezes sem avisá-lo. É fácil saber porque isso é ilegal, vamos considerar que você fique sem pagar o financiamento e o banco queira retomar o imóvel, é o seu inquilino que será despejado. Você que usou o dinheiro do aluguel dele para tudo menos para pagar as parcelas do financiamento - o que não torna o ato menos ilegal - estará duplamente encrencado, com ele e com o banco.

Um imóvel vai me garantir uma vida tranquila.

Isso depende de tantos fatores, que qualquer resposta direta é puro chute. Se você é jovem, tem um rendimento médio baixo, provavelmente o financiamento de um imóvel irá lhe privar de muitas coisa, como por exemplo: pagar uma pós-graduação (e ganhar um salário maior), pagar um curso de inglês, sair aos finais de semana com amigos ou companheira(o), pagar uma boa escola para os seus filhos, mudar-se de cidade para aproveitar uma melhor oportunidade de emprego (não se vende um imóvel tão fácil e não se transfere um financiamento tão fácil também).

O imóvel não pode ser considerado um substituto para uma reserva financeira, pois caso você precise de dinheiro em caráter emergencial, será obrigado a ofertá-lo por um preço mais baixo do que conseguiria se tivesse mais tempo. Ter um imóvel e não ter um bom plano de saúde também é arriscar demais. Pois caso você tenha um problema de saúde mais grave, os gastos com o tratamento podem lhe obrigar a vender o imóvel por um preço bem abaixo do esperado. Se você for a única fonte de recursos financeiros para a sua família, haverá mais um agravante, pois caso você venha a falecer ou sofrer um acidente que o impossibilite de continuar ganhando essa renda, seu imóvel será uma das únicas alternativas que restará a sua família para levantar algum dinheiro e continuar sobrevivendo.

Se a compra do imóvel, porém, for encarada como um investimento e houver uma significativa valorização que compense os riscos, então é possível que isso lhe garanta um considerável aumento de patrimônio. Infelizmente, o cidadão comum tem poucas ferramentas para fazer uma análise apurada de oportunidade de investimento em imóveis, ficando quase sempre a merce de palpites.

Chega de blá-blá-blá e vamos para um exemplo prático.

Vamos financiar uma casa nova de R$ 250 mil. Escolhi o Banco do Brasil porque tem um simulador mais completo que o da Caixa e taxa de juros é bem próxima. Vamos juntar todas as nossas economias e dar 15% de entrada, ou seja R$ 37,5 mil. Financiando R$ 212,5 mil em 360 meses.

A primeira coisa a saber é que a maioria dos financiamentos de imóveis utilizam o sistema de amortização conhecido como SAC - Sistema de Amortização Constante. O que isso quer dizer? Quer dizer que dentro da parcela, haverá um valor fixo que irá efetivamente abater a dívida que você tem com o banco. Além disso, no sistema SAC as parcelas vão diminuindo de valor com o tempo.

Vamos acompanhar como ficou a simulação no banco do Brasil. Vou mostrar a tabela até o segundo ano para não ficar muito extensa. A taxa de juros efetiva no momento da simulação foi de 9,83% ao ano.


Financiamento pelo BB


Vamos compor a parcela do financiamento, lembrando que aqui estão demonstrados apenas 24 meses, e esse financiamento é de 360 meses. Dos R$ 2.225,57 da primeira parcela, R$ 590,27 vão para abater a sua dívida (Só isso? Sim, só isso durante 360 meses). R$ 1,14 é da Taxa Referencial apurada pelo Banco Central. R$ 1564,06 são de juros. R$ 25,71 de seguro por morte e invalidez permanente, R$ 19,39 é o seguro por danos físicos ao imóvel e R$ 25 é referente a tarifa de administração que o banco cobra pelo seu financiamento.

Aquela história de estar pagando o que é seu começa a descer meio quadrado não é? Você de fato está pagando R$ 590,27 para abaixar a sua dívida com o banco. Toda a diferença, R$ 1.635,30, você está pagando de "aluguel" para o banco. Mas as parcelas vão diminuindo, logo estarei pagando uma parte bem menor para o banco, não é verdade? Em partes. Depois de 20 anos, sua parcela será de R$ 1.843,48. Tirando o R$ 590,27 que você amortiza da sua dívida, você ainda estará pagando um aluguel ao banco de R$ 1.253,21.

Ao final dos 360 meses (30 anos), por quanto saiu a sua casa de R$ 250 mil? O valor final pago foi de R$ 694.129,98 de parcelas + R$ 37.500,00 de entrada = Total de R$ 731.629,98. A grande pergunta agora é, quanto (se tudo der certo) valera essa casa ao fim desse período? Vamos imaginar que a casa em média acompanhou a inflação durante esses 30 anos e que ela foi em média de 4,5% ao ano. Ela então valeria R$ 936.393,55.

O que muitas pessoas costumam dizer é que pagaram R$ 250 mil na casa e hoje ela vale R$ 936 mil. Na verdade, o valor pago foi de R$ 731 mil.

E se em vez de fazer um financiamento, eu poupasse a diferença entre a prestação e o aluguel? Vamos supor que eu pagasse R$ 1.000,00 de aluguel e poupasse os outros R$ 1.000,00, depositando-os na poupança todo mês, onde já estariam depositados os R$ 37.500,00 que eu iria dar de entrada no financiamento. Com um rendimento de 0,6434% ao mês, eu teria os R$ 250.000,00 em 116 meses, ou 9 anos e 8 meses.

Se você pensou: Mas o imóvel que custava R$ 250.000,00 hoje, não vai custar o mesmo valor daqui a 9 anos e 8 meses. Isso é verdade, mas uma coisa é você ter R$ 250.000,00 para dar de entrada em um financiamento e outra coisa muito diferente é você ter R$ 37,500,00 ou até menos. Além disso, o rendimento da poupança é bastante conservador, com um pouco de esforço você pode conseguir um rendimento maior que fará toda a diferença, graças a mágica dos juros compostos que estarão a seu favor. Se em vez de 0,6434% ao mês, você conseguir 0,90% ao mês (muito fácil hoje em dia) o tempo para juntar R$ 250.000,00 cai para 8 anos e 4 meses.

Além do mais, o reajuste anual do aluguel que você paga pode ser negociado para que fique abaixo da inflação, se a empresa que você trabalha não ajusta o seu salário de acordo com a inflação, porque permitir sem lutar que o seu aluguel seja?

Considerações finais

Decidir pelo financiamento precoce do imóvel ou pela poupança para a compra a vista ou para um financiamento mais suave é algo que não tem nada de simples. Além de exigir um esforço coordenado entre disciplina e conhecimento financeiro, pensar sobre isso nos coloca diante de dilemas e julgamentos, principalmente por parte dos nossos familiares. Crescemos ouvindo de nossos pais e amigos como é importante ter a casa própria o mais rápido possível, que pagar aluguel é jogar dinheiro fora e assim por diante.

Em países onde as taxas de juros apresentam alguma decência esses dilemas são mais fáceis de serem resolvidos. Mas aqui no Brasil, a escolha errada sobre o que fazer nesse sentido pode lhe custar dezenas de anos da sua vida em forma de privações. Boa parte de todos os recursos que uma pessoa gera durante seu período economicamente ativo no mercado de trabalho acaba sendo transferido para os bancos em forma de juros e taxas, disfarçados sobre o manto da realização de um sonho, seja o da casa própria, seja o do carro, para citar dois dos mais relevantes.

Espero que esse post o tenha ajudado a refletir sobre esses dilemas e colabore para uma conquista mais saudável do seu imóvel . Para finalizar, gostaria de lembrá-los que no nosso Brasil, os juros são uma faca de dois gumes, se eles estão a seu favor você está no céu, mas se eles estiverem contra você....




sábado, 17 de outubro de 2015

POR QUE TUDO É TÃO CARO NO BRASIL?


Todo grande lançamento da Apple, gigante da tecnologia, é a mesma coisa, pessoas costumam acampar em frente as lojas para poderem colocar as mãos em seus objetos de desejo o quanto antes. Com a chegada do Apple Watch no Brasil, foi diferente. Ao abrir as portas as 10 da manhã, a loja da Apple do Shopping Morumbi não encontrou mais que 10 pessoas fazendo fila, das quais, 6 estavam lá para outras questões que não a compra do relógio, conforme matéria do jornal Valor Econômico.

Além de não ser nenhum divisor de águas - como é esperado que todo lançamento da Apple seja - e ter alguns concorrentes de peso no mercado de relógios inteligentes, o preço do dispositivo tem sua significativa parcela de culpa na baixa procura. O modelo da foto acima custa US$ 599,00 dólares nos EUA. Enquanto no Brasil, o mesmo relógio sai por R$ 4.999,00 reais. É claro que se você tiver o dinheiro para o pagamento a vista, leva um belo desconto e ele sai por R$ 4.499,10 reais. Ficou bem melhor não ficou? Pois é, não ficou.




Na figura acima temos o exemplo do Playstation 4. Nos EUA ele custa cerca de US$ 349,99 dólares. Ao desembarcar no Brasil em 2013 ele chegou aqui pela bagatela de R$ 3.999 reais. Isso sem contar que a cotação do dólar por real era muito menor do que é hoje. Com a produção do vídeo game no Brasil, o preço se reduziu, porém, ainda é um dos mais caros do mundo.

Então de quem é a culpa por preços tão altos no Brasil? Se você respondeu: dos impostos, tirou 9 na prova. Os impostos as vezes revezam o protagonismo com as altas margens de lucros que nós brasileiros aceitamos pagar.

Vamos ver o caso do PlayStation 4 de R$ 3.999 reais que chegou no Brasil em 2013. Diz o ditado, que Deus criou o céu e a terra, e que todo o restante é feito na China. A chance de que seus aparelhos eletrônicos sejam fabricados na China ou sejam montados no Brasil com componentes chineses é bastante elevada. A Sony, na ocasião, disse que o console chegava ao porto brasileiro por US$ 390 dólares. Com o dólar beirando 2,20 reais/dólar, seriam R$ 850,00 reais.

É agora que a mágica começa a acontecer. Ao desembarcar no porto, incide o primeiro imposto, que é o Imposto de Importação (II), para esse produto a alíquota é de 20% (R$ 171,60). Agora vem o Imposto sobre Produtos Industrializados, que nesse caso é de 50%. Você deve se perguntar, 50% sobre os R$ 850,00? Não dessa vez, sobre os R$ 858,00 mais os R$ 171,60 de (II). Pode isso Arnaldo? Sim, nós somos brasileiros e não desistimos (de tributar) nunca. Até agora ficamos assim R$ 850 + R$ 171,60 + 0,5*(850+171,60) ==> O preço já está em R$ 1.544,40 e ele ainda está longe de chegar nas lojas.

Acabou? Calma, não chegamos nem na metade! Agora é a vez dos impostos PIS e COFINS sobre importação. Esses incidem sobre o valor original de R$ 850,00. Juntos, esses impostos possuem alíquotas de 9,25%. Ficamos com (R$ 850)*0,0925 ==> R$ 79,37 de PIS e COFINS.

Agora acabou? Mais calma, de onde você acha que governo tira o dinheiro para os hospitais de primeiro mundo que temos, para as escolas padrão "internacional" que os seus filhos estudam, para a segurança de dar inveja a qualquer suíço e para as estradas conservadas e sem pedágios que tanto nos orgulhamos? Dizer que estou sendo irônico seria o mesmo que explicar piada.

Vamos agora ao ICMS, o imposto estadual mais relevante para o financiamento dos estados. Usando o estado de São Paulo, a alíquota para o PlayStation 4 é 25% sobre o valor do porto mais todos os impostos. Temos então que o o ICMS é igual a ((858+171,60+514,80+14,16+65,21)/0,75)*25% = ICMS de R$ 541,26.

Agora o produto já pode entrar no caminhão e ir para a distribuidora da Sony, que vai revendê-lo para as grandes lojas, onde você irá comprá-lo. O produto que chegou por R$ 858 reais, já recebeu R$ 1.307,03 de impostos até agora.  

O custo do produto para o distribuidor Sony é de R$ 1.029,60, pois o ICMS, IPI, PIS e COFINS não são contabilizado como custo, o que foi pago desses impostos será utilizado como crédito que abaterá os impostos a serem pagos no momento da venda, do contrário, haveria pagamento em duplicidade. A Sony tem uma margem de lucro de 20% ao vender o produto para uma grande loja, como as Lojas Americanas por exemplo. Para ter essa margem, ela parte de um preço líquido de R$ 1.287,00, que ao aplicar os 20% dá R$ 257,40. A soma do custo R$ 1029,60 mais a margem de R$ 257,40 é igual ao preço líquido de R$ 1.287,00

A partir desse preço, começa a penúltima rodada de impostos. Então vamos as somas: Preço de R$ 1.287.00 + ICMS de R$ 489.35 + PIS de R$ 32,30 + COFINS de R$ 148,76 + IPI de R$ 978,71 + ICMS Substituição Tributária de R$ 490,87. As Lojas Americanas pagam então pelo PlayStation 4 R$ 3.426,99.

Já está acabando, o cálculo, não a carga tributária. O varejista (Lojas Americanas) aplica uma margem de lucro de 16% sobre o custo de R$ 3.245,93 (R$ 3.426,99 menos PIS menos COFINS). Partindo de um preço líquido de venda de R$ 3.864,20. 

Estamos quase lá...Agora para o produto chegar as suas mãos, incidem PIS e COFINS de R$ 70,26 e R$ 323,61 respectivamente. Dando um preço final ao cliente de R$ 4.258,08. Como a Sony sugere um preço máximo de R$ 3.999,00 o varejista dá um desconto de R$ 258,09. E o Playstation chega até você pelo honestíssimo preço de R$ 3.999,00. 

Um americano ganhando salário mínimo precisou trabalhar cerca de 5 dias e meio para comprar um PS4. Enquanto um trabalhador brasileiro ganhando salário mínimo precisou trabalhar 162 dias em 2013 para comprar o mesmo video game. 66% do preço do Playstation 4 em 2013 no Brasil eram impostos. Com a margem de lucro que resta, a Sony precisa pagar funcionários, fretes, energia elétrica, e mais uma infinidade de despesas. E nós sabemos que no Brasil a energia é barata, as estradas são ótimas, não há roubo de carga que encareça frete, o combustível é super barato, enfim, vivemos em um paraíso...sendo irônico novamente.

Quer dizer que as empresas operam com baixas taxas de lucro e os impostos é que são responsáveis por esses preços absurdos? Não necessariamente.

Vamos usar o exemplo do relógio da Apple, do início do post, para demonstrar um outro grave problema da população brasileira. O preços dos produtos da Apple no Brasil extrapolam os limites do absurdo. Mesmo a elevada carga tributária é insuficiente para justificá-los. O mal está na busca por Status.

O Brasil é um país muito desigual. Aqui, um recepcionista de hotel ganha dezenas de vezes menos que um médico. Em muito países desenvolvidos e alguns nem tanto, isso não acontece. Portanto, o preço alto, muitas vezes é o principal motivo por que alguém queira comprar um produto aqui. Com isso cria-se um sentimento de distinção de classe. É como se quem pudesse comprar um Iphone fosse rico e quem não pudesse fosse pobre. 

Isso é muito visível no nosso mercado automotivo. Por ser um país muito desigual, o carro é um símbolo de status, de distinção social, enquanto em outros países um carro nada mais é do que um meio de transporte muitas vezes indispensável. A indústria automotiva se aproveita disso para nos cobrar preços irreais por carros que nem ao menos são aceitos em outros mercados por conta de sua baixa qualidade e falta de segurança.

Outro exemplo são roupas. No Brasil as pessoas procuram se diferenciar pelas roupas que usam. Camisas da Tommy, Calças da Levis, Camisetas Calvin Klein, etc. Muitos chegam a se enterrar em prestações para adquirir essas peças por preços que chocariam qualquer pessoa em outro lugar do mundo. Nos EUA por exemplo, roupas da Levis são vendidas em supermercados, em bacias, onde ao se levar 4, paga-se apenas 3, com preço unitário por volta de 12 dólares. Roupas da Tommy são vendidas em outlets por preços infinitamente menores que aqui, os preços também são decrescentes quanto maior o número de peças adquiridas. 

Esses nossos hábitos de consumo são ridicularizados em todas as partes do mundo. Mas enquanto tivermos os políticos que temos, o descaso com a educação e a desigualdade que temos, continuaremos sendo piada no exterior.












quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ONDE INVESTIR MEU DINHEIRO? PARTE 2




       
       Olá pessoal, agora que já vimos na parte I que não perder dinheiro é o passo mais importante para começar a investir, vamos avançar um pouco e falar de algumas armadilhas quando se trata de investir o seu dinheiro. Quer aprender como evita-las? Confira!

CUIDADO COM O AMIGO DA ONÇA

Vá a uma concessionaria de automóveis qualquer, diga que você está com uma grana sobrando e pergunte ao vendedor qual seria o carro ideal para você. Diga a ele que você é solteiro (a), que não tem filhos, que vai usar o carro apenas para ir ao trabalho que fica a 2 km da sua residência e que ocasionalmente irá ao mercado fazer compras para a semana.

Não se espante se ele te oferecer um sedan de luxo que estaciona sozinho, tem 400 cavalos de potência (e faz 4 km/litro) e que só de seguro, manutenção e abastecimento vai te custar um carro popular por ano. Mas o que isso tem a ver com investimentos? Tudo!

Sempre que você procurar orientação de investimentos com um “vendedor” - que geralmente é comissionado - muito provavelmente ele irá lhe oferecer uma opção que é mais vantajosa para ele do que para você. Em uma negociação, o ideal seria que ambos saíssem ganhando, mas no mundo real, é em benefício do que possui maior conhecimento que os ventos costumam soprar. Não estou dizendo que todo vendedor tentará te enganar, eu conheço ótimo vendedores, mas caso um deles tente, é melhor estar preparado.

Um exemplo clássico de vendedor comissionado é o gerente do seu banco. Isso mesmo, aquela pessoa a quem você recorre quando quer saber onde investir as suas economias.

Já ouviu falar em um “investimento” chamado Título de Capitalização, mais conhecido pelos seus nomes comerciais Ourocap (Banco do Brasil), PIC (Itaú), Capsorte (Santander), etc? Se eles ainda não foram oferecidos a você pelo seu gerente, certamente um dia serão.

Muitas vezes comparados com a poupança tradicional, esses títulos nem se quer podem ser chamados de investimento. Trata-se de uma modalidade onde geralmente após um período de aplicação você recebe o mesmo valor que depositou, isso quando recebe o valor total, o que significa que durante todo esse período seu dinheiro ficou parado, sem receber juros e sem ser corrigido pela inflação. 

Os títulos de capitalização são comparáveis a bilhetes de loteria, com a diferença que você recebe depois de um tempo o dinheiro que depositou, sem correção alguma. Ou seja, o título de capitalização só é vantajoso para quem ganha os prêmios, e as chances de isso acontecer são bem mínimas. Ah, já ia me esquecendo, se você pensar em retirar o seu dinheiro antes do prazo estabelecido, prepare-se para ser punido.

Não é difícil concluir que pegar o seu dinheiro, não pagar nada por ele depois de um longo período de tempo é o sonho de qualquer banco. E os gerentes que conseguem tornar esse sonho realidade são premiados por isso. Cada cliente que adere a essas modalidades de “investimento” coloca o gerente da agência mais próximo do bônus.

Essas armadilhas estão mais presentes do que possamos imaginar. Seja o seu gerente tentando lhe vender algum investimento que não lhe trará retorno algum, seja o seu concessionário tentando lhe vender um carro que lhe trará mais despesas do que retornos, seja o seu corretor querendo lhe vender aquela casa que nos próximos anos ele jura que vai triplicar de valor, enfim, todos querem um pedaço do seu dinheiro e apenas o conhecimento poderá lhe garantir a melhor escolha.

Se você tem um dinheiro sobrando e não sabe o que fazer com ele, meu conselho é: Não faça nada, pelo menos até saber. Enquanto isso, deixe o dinheiro na velha caderneta de poupança. Ela não cobra imposto de renda sobre os rendimentos e você pode sacar o seu dinheiro a qualquer momento (lembrando que se antes dos 30 dias de investimento do montante, você não recebe os rendimentos). Além do mais, você está acompanhando o blog Via Economia, não vai demorar para conseguir decidir o que é melhor para você :-).

No Brasil, investir em educação financeira é a aplicação com retorno mais garantido que se pode obter. Em poucos países do mundo é possível ganhar tanto dinheiro no mercado financeiro com tão pouco risco quanto no Brasil. Para se ter uma ideia, muitas aplicações, além de pagarem juros altíssimos, contam com uma garantia chamada de Fundo Garantidor de Crédito, que garante o seu investimento até R$ 250 mil em caso de falência da instituição financeira.

O contrário também é verdadeiro. Em poucos países do mundo é tão fácil fazer o seu dinheiro escorrer pelo ralo como no Brasil. As taxas de juros cobradas em financiamentos são exorbitantes, multiplique o número de parcelas do financiamento do seu carro, da sua casa e veja quantas vezes esses bens irão lhe custar efetivamente.

Por que os juros brasileiros são tão altos? Bom, aí já é assunto para um próximo post, quando trataremos de alternativas a poupança. Não percam.