Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu um comentário do tipo: "Não tem nem uma casa pra morar e está comprando um carro novo" ou então: "Quem casa quer casa". Para nós brasileiros, lutar para adquirir um imóvel parece ser a escolha mais óbvia e menos contestada que existe. Mas será que realizar o sonho da casa própria é sempre um bom negócio? É o que vamos tentar descobrir.
Se você, assim como eu, nasceu na década de 80, posso afirmar sem sombra de dúvida que nós não sabemos o que é inflação de verdade. Éramos crianças quando em 1994 a inflação começou a ser domada. Agora, se você nasceu na metade anos 70 ou antes, então você já começa a se encaixar em um perfil mais "escaldado" e como diz o ditado, gato escaldado tem medo até de água fria.
O que essa história tem a ver com imóveis? Tudo! Eu cresci ouvindo dos meus pais sobre a importância de termos a nossa casa própria, da segurança de um lugar onde podemos chamar de nosso e de onde ninguém pode nos tirar. Inúmeras vezes eles destacavam o fato de que pagar aluguel significava rasgar dinheiro, algo que você pagava e não retornava nunca. Além disso, vários eram os exemplos de pessoas que compraram suas casas por um valor X e depois de alguns anos as venderam por 3 ou 5 vezes o valor que pagaram, ao passo que os que viviam pagando aluguel não tinham nada. Por isso, o objetivo primordial na vida de qualquer pessoa deveria ser fugir do aluguel e conquistar a casa própria.
Você deve estar se perguntando onde a inflação, o gato escaldado e os meus pais se unem para explicar a decisão de comprar ou alugar um imóvel. Vamos então juntar as peças desse quebra-cabeças e responder uma pergunta anterior importante: Por que os brasileiros gostam tanto de "investir" em imóveis?
Antes do lançamento do plano real em 1994, o Brasil conviveu com taxas de inflação inimagináveis para os dias de hoje. As pessoas tinham que receber seus salários e correr aos super mercados, pois os preços subiam como foguetes. Muitas vezes você estava na gôndola e tinha que ser rápido para conseguir pegar o produto antes que o remarcador de preço chegasse até ele. Não obstante a inflação nas alturas, em 1990 o presidente Collor promoveu um confisco do dinheiro daqueles que aplicavam na poupança. Ou seja, seu dinheiro era atacado de todos os lados.
Com inflação beirando a estratosfera, confisco da poupança, instabilidades econômica, onde seu dinheiro poderia estar seguro? Acertou quem disse em imóveis. Você pode tocar no seu imóvel, ele não está depositado em um banco, onde com apenas um botão alguém possa tomá-lo como fez o presidente Collor. Se você perdesse seu emprego, poderiam te tirar tudo, menos a sua casa. Além disso, o preço dos imóveis tende a se corrigir com a inflação, protegendo o valor real do seu patrimônio. Com isso, os imóveis eram vistos como um porto seguro. Essa ideia de porto seguro ficou tão fortemente enraizada na cultura do brasileiro que mesmo hoje em dia, vivendo em um contexto bastante diferente, ela persiste. Quem viveu e foi escaldado naquela época, tem medo até de água fria independentemente do quadro econômico.
Agora que já sabemos o porque dos brasileiros gostarem tanto de imóveis, vamos avançar e analisar algumas ideias.
Ao deixar de pagar aluguel e financiar um imóvel, estou pagando o que é meu.
Esse é um dos equívocos mais comuns. Ao deixar de pagar aluguel e fazer um financiamento, você deixou de pagar aluguel para uma pessoa ou imobiliária e passou a pagar aluguel para o banco. Apenas uma pequena parcela do valor mensal do seu financiamento é destinada a pagar (amortizar) o valor emprestado de fato. Enquanto você estiver pagando o financiamento, o imóvel não é seu, ele é do banco. Se você ficar inadimplente com o banco, independentemente do número de parcelas que já pagou, você estará sujeito a ser despejado, sua casa será colocada a venda por valor de mercado e muito provavelmente você ficará com uma dívida residual a pagar.
De qualquer forma, quando terminar de pagar o financiamento, serei dono do meu imóvel.
Fato. Após pagar por um financiamento de 30 anos, você terá um imóvel que já tem 30 anos. Na hora de vendê-lo, não fará muito sentido comparar o preço dele com o preço daquela casa novinha que saiu no seu bairro.
Imóvel se valoriza sempre
Essa é uma crença que ganhou força nos últimos 10 anos. Na década de 80 por exemplo, com a hiperinflação, os imóveis em geral perderam valor. Nos últimos anos, com o aumento da renda e principalmente de políticas de estímulo ao crédito, os imóveis se valorizaram muito. Com o fim desse ciclo de expansão, o que se tem visto mais recentemente é um excesso de imóveis e uma pressão negativa sobre os preços.
Vejam no gráfico abaixo como nos últimos 12 meses o preço dos imóveis na cidade de São Paulo tem perdido consistentemente para a inflação (IPCA).
A valorização dos imóveis depende principalmente da conjuntura econômica do país, do nível de renda das pessoas e da política de concessão de crédito. Valorização passada não serve como base para garantir valorização futura.
Vou financiar um imóvel, alugá-lo e pagar as parcelas com o aluguel que receber.
Isso se chama alavancagem, seria muito bom se não oferecesse grandes riscos e principalmente se não fosse ilegal. Ao fazer um financiamento residencial, pressupõe-se por contrato que ele seja usado para moradia do contratante. Ao alugar esse imóvel, você está colocando o inquilino sobre um grande risco - muitas vezes sem avisá-lo. É fácil saber porque isso é ilegal, vamos considerar que você fique sem pagar o financiamento e o banco queira retomar o imóvel, é o seu inquilino que será despejado. Você que usou o dinheiro do aluguel dele para tudo menos para pagar as parcelas do financiamento - o que não torna o ato menos ilegal - estará duplamente encrencado, com ele e com o banco.
Um imóvel vai me garantir uma vida tranquila.
Isso depende de tantos fatores, que qualquer resposta direta é puro chute. Se você é jovem, tem um rendimento médio baixo, provavelmente o financiamento de um imóvel irá lhe privar de muitas coisa, como por exemplo: pagar uma pós-graduação (e ganhar um salário maior), pagar um curso de inglês, sair aos finais de semana com amigos ou companheira(o), pagar uma boa escola para os seus filhos, mudar-se de cidade para aproveitar uma melhor oportunidade de emprego (não se vende um imóvel tão fácil e não se transfere um financiamento tão fácil também).
O imóvel não pode ser considerado um substituto para uma reserva financeira, pois caso você precise de dinheiro em caráter emergencial, será obrigado a ofertá-lo por um preço mais baixo do que conseguiria se tivesse mais tempo. Ter um imóvel e não ter um bom plano de saúde também é arriscar demais. Pois caso você tenha um problema de saúde mais grave, os gastos com o tratamento podem lhe obrigar a vender o imóvel por um preço bem abaixo do esperado. Se você for a única fonte de recursos financeiros para a sua família, haverá mais um agravante, pois caso você venha a falecer ou sofrer um acidente que o impossibilite de continuar ganhando essa renda, seu imóvel será uma das únicas alternativas que restará a sua família para levantar algum dinheiro e continuar sobrevivendo.
O imóvel não pode ser considerado um substituto para uma reserva financeira, pois caso você precise de dinheiro em caráter emergencial, será obrigado a ofertá-lo por um preço mais baixo do que conseguiria se tivesse mais tempo. Ter um imóvel e não ter um bom plano de saúde também é arriscar demais. Pois caso você tenha um problema de saúde mais grave, os gastos com o tratamento podem lhe obrigar a vender o imóvel por um preço bem abaixo do esperado. Se você for a única fonte de recursos financeiros para a sua família, haverá mais um agravante, pois caso você venha a falecer ou sofrer um acidente que o impossibilite de continuar ganhando essa renda, seu imóvel será uma das únicas alternativas que restará a sua família para levantar algum dinheiro e continuar sobrevivendo.
Se a compra do imóvel, porém, for encarada como um investimento e houver uma significativa valorização que compense os riscos, então é possível que isso lhe garanta um considerável aumento de patrimônio. Infelizmente, o cidadão comum tem poucas ferramentas para fazer uma análise apurada de oportunidade de investimento em imóveis, ficando quase sempre a merce de palpites.
Chega de blá-blá-blá e vamos para um exemplo prático.
Vamos financiar uma casa nova de R$ 250 mil. Escolhi o Banco do Brasil porque tem um simulador mais completo que o da Caixa e taxa de juros é bem próxima. Vamos juntar todas as nossas economias e dar 15% de entrada, ou seja R$ 37,5 mil. Financiando R$ 212,5 mil em 360 meses.
A primeira coisa a saber é que a maioria dos financiamentos de imóveis utilizam o sistema de amortização conhecido como SAC - Sistema de Amortização Constante. O que isso quer dizer? Quer dizer que dentro da parcela, haverá um valor fixo que irá efetivamente abater a dívida que você tem com o banco. Além disso, no sistema SAC as parcelas vão diminuindo de valor com o tempo.
Vamos acompanhar como ficou a simulação no banco do Brasil. Vou mostrar a tabela até o segundo ano para não ficar muito extensa. A taxa de juros efetiva no momento da simulação foi de 9,83% ao ano.
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| Financiamento pelo BB |
Vamos compor a parcela do financiamento, lembrando que aqui estão demonstrados apenas 24 meses, e esse financiamento é de 360 meses. Dos R$ 2.225,57 da primeira parcela, R$ 590,27 vão para abater a sua dívida (Só isso? Sim, só isso durante 360 meses). R$ 1,14 é da Taxa Referencial apurada pelo Banco Central. R$ 1564,06 são de juros. R$ 25,71 de seguro por morte e invalidez permanente, R$ 19,39 é o seguro por danos físicos ao imóvel e R$ 25 é referente a tarifa de administração que o banco cobra pelo seu financiamento.
Aquela história de estar pagando o que é seu começa a descer meio quadrado não é? Você de fato está pagando R$ 590,27 para abaixar a sua dívida com o banco. Toda a diferença, R$ 1.635,30, você está pagando de "aluguel" para o banco. Mas as parcelas vão diminuindo, logo estarei pagando uma parte bem menor para o banco, não é verdade? Em partes. Depois de 20 anos, sua parcela será de R$ 1.843,48. Tirando o R$ 590,27 que você amortiza da sua dívida, você ainda estará pagando um aluguel ao banco de R$ 1.253,21.
Ao final dos 360 meses (30 anos), por quanto saiu a sua casa de R$ 250 mil? O valor final pago foi de R$ 694.129,98 de parcelas + R$ 37.500,00 de entrada = Total de R$ 731.629,98. A grande pergunta agora é, quanto (se tudo der certo) valera essa casa ao fim desse período? Vamos imaginar que a casa em média acompanhou a inflação durante esses 30 anos e que ela foi em média de 4,5% ao ano. Ela então valeria R$ 936.393,55.
O que muitas pessoas costumam dizer é que pagaram R$ 250 mil na casa e hoje ela vale R$ 936 mil. Na verdade, o valor pago foi de R$ 731 mil.
O que muitas pessoas costumam dizer é que pagaram R$ 250 mil na casa e hoje ela vale R$ 936 mil. Na verdade, o valor pago foi de R$ 731 mil.
E se em vez de fazer um financiamento, eu poupasse a diferença entre a prestação e o aluguel? Vamos supor que eu pagasse R$ 1.000,00 de aluguel e poupasse os outros R$ 1.000,00, depositando-os na poupança todo mês, onde já estariam depositados os R$ 37.500,00 que eu iria dar de entrada no financiamento. Com um rendimento de 0,6434% ao mês, eu teria os R$ 250.000,00 em 116 meses, ou 9 anos e 8 meses.
Se você pensou: Mas o imóvel que custava R$ 250.000,00 hoje, não vai custar o mesmo valor daqui a 9 anos e 8 meses. Isso é verdade, mas uma coisa é você ter R$ 250.000,00 para dar de entrada em um financiamento e outra coisa muito diferente é você ter R$ 37,500,00 ou até menos. Além disso, o rendimento da poupança é bastante conservador, com um pouco de esforço você pode conseguir um rendimento maior que fará toda a diferença, graças a mágica dos juros compostos que estarão a seu favor. Se em vez de 0,6434% ao mês, você conseguir 0,90% ao mês (muito fácil hoje em dia) o tempo para juntar R$ 250.000,00 cai para 8 anos e 4 meses.
Além do mais, o reajuste anual do aluguel que você paga pode ser negociado para que fique abaixo da inflação, se a empresa que você trabalha não ajusta o seu salário de acordo com a inflação, porque permitir sem lutar que o seu aluguel seja?
Considerações finais
Decidir pelo financiamento precoce do imóvel ou pela poupança para a compra a vista ou para um financiamento mais suave é algo que não tem nada de simples. Além de exigir um esforço coordenado entre disciplina e conhecimento financeiro, pensar sobre isso nos coloca diante de dilemas e julgamentos, principalmente por parte dos nossos familiares. Crescemos ouvindo de nossos pais e amigos como é importante ter a casa própria o mais rápido possível, que pagar aluguel é jogar dinheiro fora e assim por diante.
Em países onde as taxas de juros apresentam alguma decência esses dilemas são mais fáceis de serem resolvidos. Mas aqui no Brasil, a escolha errada sobre o que fazer nesse sentido pode lhe custar dezenas de anos da sua vida em forma de privações. Boa parte de todos os recursos que uma pessoa gera durante seu período economicamente ativo no mercado de trabalho acaba sendo transferido para os bancos em forma de juros e taxas, disfarçados sobre o manto da realização de um sonho, seja o da casa própria, seja o do carro, para citar dois dos mais relevantes.
Espero que esse post o tenha ajudado a refletir sobre esses dilemas e colabore para uma conquista mais saudável do seu imóvel . Para finalizar, gostaria de lembrá-los que no nosso Brasil, os juros são uma faca de dois gumes, se eles estão a seu favor você está no céu, mas se eles estiverem contra você....





