sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

POR QUE O GOVERNO NÃO IMPRIME MAIS DINHEIRO E RESOLVE OS NOSSOS PROBLEMAS?


Já pensou se você pudesse ter uma impressora de reais? O governo também pensou que você poderia pensar nisso e então decretou no Art. 289 do Código Penal que: "Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda metálica ou papel-moeda de curso legal no país ou no estrangeiro: Pena - reclusão, de três a doze anos, e multa.

O governo é o único agente da economia que pode fabricar dinheiro. Quem solicita a impressão de dinheiro é o Banco Central e quem imprime é a Casa da Moeda. Existe em circulação no Brasil, em posse de pessoas e bancos, um total de R$ 212.592.246.811,04 (duzentos e doze bilhões...) em cédulas e moedas. Por que então o governo não imprime mais dinheiro e acaba com essa crise que estamos passando? Existem hospitais e escolas públicas em situação precária, o que custaria imprimir alguns milhões de reais e dar logo um jeito nessa situação? Uma cédula de real custa em média R$ 0,15 ou seja, imprimir 1 milhão de reais em notas de 100 custaria apenas R$ 1.500,00.

Imprimir mais dinheiro não gera mais riqueza por si só. Vou dar um exemplo real de como mais dinheiro não gera mais bens e sim aumento de preços (inflação). Quando eu estava na faculdade, fiz uma viagem a Foz do Iguaçu para apresentar um trabalho acadêmico junto a uns 120 alunos de diversos cursos da universidade onde eu estudava. Ficamos hospedados em um hotel localizado em uma área afastada do centro da cidade, onde havia poucas opções de comércio. Depois de realizarmos o check-in, separados em um grupo de umas 15 pessoas, fomos procurar um supermercado próximo para comprar alguns lanches. Ao chegar ao único mercadinho das imediações, fiquei muito contente em ver que o preço de bebidas como água e refrigerante, além de lanches em geral eram bastante inferiores aos preços praticado no hotel. Era a salvação da viagem, a única chance de sobrar alguma grana para comprar umas bugigangas no Paraguai.

Foi então que um aluno do curso de biologia (para não usar o nome que usei em pensamento na sequência do que vou lhes contar), igualmente encantado com o preço dos produtos, disse em alto e bom som para o dono do mercadinho "Olha, acho melhor o senhor aumentar os estoques de água, refrigerantes e afins, pois estamos em mais de 100 pessoas no hotel aqui ao lado". Ao sairmos do mercado eu perguntei ao rapaz se ele era maluco, pois acabara de dar ao dono do mercado uma informação que iria prejudicar a todos nós. Ele balançou os ombros e fez cara de quem não via as coisas assim.

O que o dono do mercado fez no mesmo dia, algumas horas depois? Aumentou os estoques como havia sugerido o nosso colega iluminado? Claro que não, ele simplesmente dobrou o preço de todos os produtos mais consumidos. Pois havia a iminência de mais dinheiro na praça. E o que nós fizemos? Sem opção, pagamos o dobro por tudo durante toda a nossa estadia.

Essa história demonstra o que acontece quando há um aumento repentino de dinheiro na economia sem que haja conexão entre aumento de produção, produtividade e/ou população. Os preços irão subir e as pessoas ficarão em uma situação pior do que estavam anteriormente. É possível enganar os agentes econômicos por algum tempo (se não tivessem contado ao dono do mercadinho sobre o excesso de demanda), mas no longo prazo o excesso de dinheiro acaba sendo percebido e isso se reflete no aumento de preços dos produtos para que o equilíbrio seja alcançado.

UMA ALTERNATIVA A IMPRESSÃO DE DINHEIRO

O governo sabe que se começar a imprimir dinheiro além do estritamente necessário para manter a economia girando, o resultado será um aumento geral dos preços e consequentemente uma queda na confiança de todos os participantes da economia quanto ao futuro do país.

Mesmo sem poder imprimir dinheiro para quitar as suas obrigações, o governo gasta sistematicamente mais do que arrecada. Como então essa conta pode fechar?

Uma opção é turbinar a arrecadação aumentando os impostos. Há um limite para isso, uma vez que uma maior carga tributária (que no nosso caso já é imensa), tende a desacelerar a atividade econômica, podendo o remédio ter um efeito contrário, o de reduzir a arrecadação por conta do menor número de contribuintes que suportem essa carga.

A opção mais usada no entanto é uma bastante simples e é a mesma que nós, pessoas comuns, utilizamos em tais situações. Obter um empréstimo. Mas de quem? De qualquer um que esteja disposto a emprestar, principalmente dos bancos. Como?

O governo, através do Tesouro Nacional, emite o que são chamados de Títulos Públicos da Dívida Federal. Trata-se de um promessa por parte do governo em pagar uma certa quantia atualizada por uma taxa de juros a quem se dispor a lhe emprestar dinheiro. Dessa maneira, ele não precisa imprimir mais dinheiro. E acredite, o governo é o melhor pagador da economia, se ele não tiver recursos suficientes para lhe pagar na data prometida, haverá a opção de fazer novos empréstimos para pagar os anteriores. Os bancos compram esses títulos porque além da remuneração que o governo paga, eles os utilizam para obter empréstimos de outros bancos, utilizando os títulos como garantia. Nós também podemos emprestar dinheiro ao governo diretamente, basta para isso que adquiramos títulos através do Tesouro Direto, ambiente onde o o governo vende seus títulos a pessoas físicas.

Maravilha, então bastaria que o governo emitisse o maior número possível de títulos da dívida e resolvesse todos os problemas do país, correto? Infelizmente não. Como você deve bem saber, toda dívida precisa ser paga um dia. E se você estiver pagando suas dívidas contraindo outras, certamente aquele que está te emprestando dinheiro exigirá maiores garantias ou até mesmo interromperá a concessão de novos empréstimos por receio de que você possa vir a não cumprir com as suas obrigações. Nós vimos isso acontecer recentemente com a Grécia.

Nós cidadãos devemos ficar em alerta quando os nossos governantes começam a se endividar demasiadamente. Se algum governo estiver conseguindo promover uma melhora na qualidade de vida dos seus governados sem uma contrapartida na melhora de indicadores econômicos que reflitam a geração de riqueza, desconfie, não existem milagres quando se trata de economia. Mais dinheiro na mão das pessoas não significa necessariamente mais riqueza.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

DÁ PRA CONTAR COM LOTERIA PRA MUDAR DE VIDA?


O que você faria se ganhasse na Mega-Sena? 

Em casa, no bar com os amigos, no trabalho, esse assunto sempre rende. Mansões, carros esportivos, aviões, lanchas, fazendas, ajudar a família e viagens ao redor do mundo são apenas alguns dos planos mais citados pelos aspirantes a milionários.

O próximo sorteio da Mega-Sena estima pagar um prêmio de R$ 130.000.000,00. Torceu o nariz para o Neymar ostentando sua Ferrari F458 Spider F1 no Instagram? Com essa grana você poderia comprar 52 delas. Preza por morar bem? Que tal comprar um dos imóveis mais caros a venda no Brasil? Uma mansão no Jardins em São Paulo, pela bagatela de R$ 48.000.000,00. Com o troco ainda daria para comprar 32 dessas Ferraris.

Hotel Burj Al Arab - Dubai

Suíte Panorâmica do Burj Al Arab - Dubai


O seu negócio é ter uma vida sossegada, desapegada de bens materiais? Que tal colocar o dinheiro na poupança, sacar quase R$ 1.000.000,00 só de juros por mês e morar por um tempo em uma das suítes do hotel Burj Al Arab em Dubai, com diária em torno de R$ 10.200,00, você poderia ficar hospedado 30 dias por mês e ainda lhe sobrariam R$ 694.000,00 para despesas correntes.

Pensando em algo mais nobre? Ajudar uma instituição de caridade, conceder bolsas de estudos a crianças carentes, as possibilidades são imensas. Mas quais as chances de levar essa bolada?


Quais são as minhas chances? Existe alguma estratégia vencedora?

O slogan das loterias da Caixa é "Pra sorte todo mundo é igual. O próximo ganhador pode ser você". Temos aí uma meia verdade. A sorte não é igual para todo mundo. Existe uma considerável quantidade de fatores que não estão sobre o nosso controle. Você não escolhe nascer na família que nasceu, não escolhe a sua cidadania, não escolhe os políticos que vieram antes da sua aptidão para votar, não escolhe as crenças e costumes dos seus pais e assim por diante. Todos esses fatores são bastante relevantes na determinação da sorte de uma pessoa. Se Bill Gates tivesse nascido em uma favela do Rio e estudado em uma escola pública da periferia em vez de ter estudado no colégio Lakeside, nos EUA, onde havia um computador próprio bastante avançado, que rendeu a ele milhares de horas de experiência em programação, é muito provável que ele não fosse quem é hoje (poderia ser jogador de futebol talvez).

O que na verdade é igual para todo mundo são as leis da estatística. Se você fizer um jogo com 6 números, não importa se você é rico, pobre, alto, baixo, analfabeto ou pós-doutorado, suas chances serão exatamente iguais as de qualquer pessoa que também tenha jogado com 6 números. Matematicamente falando NÃO EXISTE nenhuma estratégia que aumente suas chances de ganhar sem a contrapartida de um dispêndio financeiro maior, seja fazendo mais jogos ou jogando uma quantidade maior de números (7, 8, 9...), que no final é praticamente a mesma coisa. Então porque nos encantamos tanto por fórmulas mágicas que prometem aumentar nossas chances de ganhar?

É da natureza humana enxergar padrões onde na verdade não existem. Quem nunca conseguiu identificar uma figura olhando para as nuvens? Muitas vezes nos valemos de um atalho para julgar e tomar decisões, a isso se dá o nome de heurística, que consiste em focar apenas um aspecto de um problema complexo e ignorar todo o restante. Ao ser surpreendido por uma cobra, seu instinto é simplesmente fugir, você dificilmente perderá seu tempo analisando se a cabeça da cobra é redonda ou triangular para julgar se ela é ou não peçonhenta, se a ponta do rabo é fina ou mais distribuída, você só focará no fato de que se trata de uma cobra e que o bom senso mandar correr.

Usar esses atalhos pode salvar nossas vidas, mas também pode nos levar a cometer erros de julgamento e consequentemente decisões equivocadas. A esses erros se dá o nome de viés cognitivo.  

Além do viés cognitivo, um problema mais facilmente percebido é a falta de intimidade com a matemática. Nesse sentido, colabora a baixa qualidade da educação em nosso país. Entender como funciona um jogo de azar requer uma base conceitual de estatística que não raramente faz as pessoas torcerem o nariz só de pensar. Sem essa base, dificilmente se faz um julgamento correto, e é então que a heurística assume o comando. Por isso dizem que a loteria é o imposto que o governo cobra pela ignorância em matemática.

A loteria é justa?

Por justo vamos considerar que se eu fizer uma aposta com você, nós dois contaremos apenas com a sorte, sem nenhuma outra vantagem um sobre o outro. Para isso, vou tentar explicar o conceito de esperança matemática do jeito mais simples possível.

Eu te proponho a seguinte aposta, vamos jogar uma moeda para cima e se der cara você ganha R$ 1,00, do contrário (coroa) você perde R$ 1,00. Se jogarmos a moeda 1000 vezes, quanto você espera ganhar? Se você respondeu qualquer coisa diferente de "NADA", este artigo lhe será ainda mais útil.

A chance de dar cara ou coroa no lançamento de uma moeda é de 50% para cada resultado. Dessa forma, em média, nas 1000 vezes que a moeda for lançada, metade delas você vai ganhar R$ 1,00 (500 x R$ 1,00) e na outra metade vai perder R$ 1,00 (500 x R$ -1,00). No final dos 1000 lançamentos a sua expectativa de ganho é de R$ 0,00. Esse é um jogo justo. Uma perda de tempo, mas justo.

A Mega-Sena é um jogo justo? Vamos ver, o preço de uma aposta simples de 6 números é de R$ 3.50. E o prêmio estimado para o próximo sorteio no momento em que esse artigo foi escrito estava em R$ 130.000.000,00. Existem 60 números no volante, eu posso escolher 6. Eu consigo formar 50.063.860 (cinquenta milhões, sessenta e três mil, oitocentos e sessenta) combinações diferentes de 6 números em um volante de 60 números. Desse montante, apenas uma sequencia de 6 números levará o prêmio total.

Para fazer todos os jogos possíveis, eu gastaria 50.063.860 x R$ 3.50 = R$ 175.223.510,00 e como eu iria acertar 1 deles, eu ganharia os R$ 130.000.000,00. Espere aí....Isso dá um saldo negativo de R$ 45.223.510,00. Quer dizer que o governo está me trapaceando? Exatamente, você tem uma esperança matemática negativa enquanto o governo tem uma positiva, e bem positiva. E no longo prazo, não se pode vencer a calculadora. Para ser justo, ao preço de R$ 3,50, o prêmio deveria ser de no mínimo R$ 175.223.510,00. O que na esmagadora maioria das vezes não é.


Vou usar aquele macete infalível.

Quem nunca ouviu de um amigo ou de um parente uma dica quente para aumentar as suas chances de ganhar na Mega-Sena?  Jogar só nas duas primeiras fileiras, jogar apenas números pares, dar uma olhada naquela tabela que mostra quais são os números que mais saem, isso só para citar alguns. Além desses, existem diversos gurus na internet que vendem receitas prontas e cobram por isso. Os devaneios matemáticos e estatísticos são tantos que não é difícil ceder a tentação e "investir" em um desses métodos.

Pare por um instante e pense comigo. Algumas das mentes mais brilhantes do universo, em vez de estarem focadas em tornar o mundo um lugar melhor, estão empregadas em grandes conglomerados financeiros, bancos como o JP Morgan, Deutsche Bank, Citigroup, Bank of America Merrill Lynch e assim por diante. Além desses cérebros, esses bancos possuem um poder computacional somente equiparado aos vistos em instalações militares de primeiro mundo. Juntando esses dois ingredientes, esses bancos tem um poder de calculo estatístico quase que impossível de se imaginar. Eles conseguem processar toneladas de informações em frações de milésimos de segundos, podem identificar padrões onde um ser humano levaria 1 milhão de anos em apenas alguns instantes.

Com todo esse poder, você já viu algum fundo de investimento chamado "Fundo Ganhador de Loteria"? Por que esses grandes conglomerados não empenham seus esforços em identificar padrões e enriquecer seus investidores ganhando em loterias ao redor do mundo? Por um simples e único motivo: A esperança matemática, ou seja, o retorno esperado em toda e qualquer loteria é negativa e não há o que você possa fazer para reverter esse quadro. Não há como enganar a estatística. As pessoas que vendem livros e fórmulas prontas de como ganhar na loteria enriquecem vendendo essas fórmulas e não através da loteria em si. Se você pudesse transformar pedra em ouro, venderia a fórmula no mercado para ter que dividir com milhares de pessoas os retornos dessa descoberta?

A chance de acertar 6 número na Mega-Sena é de 1 em 50.063.860. Não importa se você escolhe os números de cabeça para baixo, se joga sempre os mesmos números, se só escolhe os pares, se usa sua data de aniversário, data de casamento, etc....a chance será sempre a mesma, queira você ou não. É triste, mas é a realidade.

E aquelas tabelas que rolam na internet sobre os números que mais saem? Lamento lhe informar, mas apostar nesses números na esperança de ter a sorte aumentada é um belo exemplo do viés cognitivo que tratamos anteriormente. Esse aparente padrão é bastante conhecido da estatística. É perfeitamente possível que eu jogue uma moeda para cima 9 vezes e que nas 9 vezes o resultado seja cara. A chance disso acontecer é baixa, 0,2%, mas absolutamente possível.

Podemos ficar tentados a imaginar dois cenários para o décimo lançamento da moeda. Como já saiu cara 9 vezes, é batata que vai sair cara novamente, ou o contrário: Já saiu cara demais, agora é certeza que vai ser coroa. Ambos os pensamentos estão errados. O fato de ter saído 9 vezes o mesmo resultado em nada altera o próximo, ou seja, a chance de sair cara ou coroa no próximo lançamento é exatamente igual a 50%. Esse fenômeno é explicado pelo fato de que em eventos aleatórios, não podemos inferir a probabilidade real baseados em poucas amostras, é apenas com um número bastante elevado de eventos que a probabilidade real converge para a probabilidade esperada. Se jogarmos a moeda 10 mil vezes, chegaremos muito próximos dos 50% em cada resultado, independente de ter saído 9 vezes cara no começo.


Então não tem nada que possa ser feito pra dar um empurrão na sorte?

Calma, depois da tempestade vem a calmaria. Nem tudo está perdido. Vou citar duas ações que podem tornar o sonho de ficar rico "fácil" menos impossível.

  • Bolão
Você tem dois motivos muito importantes para participar de bolões. O primeiro é que você aumenta as sua chances de ganhar alguma coisa sem precisar investir mais. Segundo, caso você não jogue e seus amigos venham a ganhar, a depressão que pode lhe afligir ao chegar no escritório e ser o único por lá pode ser incurável.

  • Jogue jogos mais fáceis


A chance de ser atingido por um raio (nos EUA) é de 1 para 280 mil em um ano qualquer. A chance de ganhar na Mega-Sena com 6 números é de 1 em 50 milhões. Ou seja, é mais fácil que caiam 170 raios na cabeça de um mesmo americano em 1 ano do que alguém venha a ganhar na Mega-Sena.

Pense o seguinte, se você é como a maioria e não tem 1 tostão furado poupado, tá sobrando mês no final do salário e torce mais pelo décimo terceiro do que pelo seu time do coração, que problema você tem que não poderia ser resolvido com R$ 1 milhão?

Não é melhor ter mais chances de ganhar R$ 1 milhão do que quase nenhuma chance de ganhar R$ 130 milhões? A Loto Fácil por exemplo, custa R$ 2,00 (43% mais barato que a mega) e paga um prêmio médio de R$ 1 milhão. A diferença mais absurda está nas chances de ganhar, enquanto na mega você é 1 em 50 milhões, na Loto Fácil você é 1 em 3 milhões.

Conclusão

Jogos de azar não foram concebidos para deixar os apostadores ricos. No caso dos jogos administrados pelo governo, eles servem para financiar o estado. Em jogos privados, como em cassinos, eles foram feitos para enriquecer os investidores desses empreendimentos. A esperança matemática, ou seja, o retorno esperado sempre será negativo, ou seja, desfavorável ao apostador. Quando você ganha uns trocados em algum jogo e abre aquele sorriso de quem diz "Venci o sistema" eles sabem que você voltará e que não conseguirá vencer no longo prazo, que é o que importa. 

Sabe qual é a vantagem do cassino sobre o apostador no clássico jogo de roleta? Apenas 5,26%. É essa pequena diferença que garante os lucros monstruosos dos cassinos. No longo prazo, se a casa tiver qualquer vantagem sobre o apostador, como nesse caso, quem saíra perdendo é sempre o apostador. Para cada um indivíduo que ganhar alguma coisa, outros milhares terão perdido. 

Não conduza sua vida na esperança de que algum jogo de azar vai te deixar rico. Se esforce para isso do jeito tradicional, é o mais difícil, porém o mais provável de funcionar. 

Obrigado pela atenção e com licença que vou fazer aquela fezinha na mega, quem sabe né....





 



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

COMPRAR OU ALUGAR UMA CASA?

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu um comentário do tipo: "Não tem nem uma casa pra morar e está comprando um carro novo" ou então: "Quem casa quer casa". Para nós brasileiros, lutar para adquirir um imóvel parece ser a escolha mais óbvia e menos contestada que existe. Mas será que realizar o sonho da casa própria é sempre um bom negócio? É o que vamos tentar descobrir.

Se você, assim como eu, nasceu na década de 80, posso afirmar sem sombra de dúvida que nós não sabemos o que é inflação de verdade. Éramos crianças quando em 1994 a inflação começou a ser domada. Agora, se você nasceu na metade anos 70 ou antes, então você já começa a se encaixar em um perfil mais "escaldado" e como diz o ditado, gato escaldado tem medo até de água fria.

O que essa história tem a ver com imóveis? Tudo! Eu cresci ouvindo dos meus pais sobre a importância de termos a nossa casa própria, da segurança de um lugar onde podemos chamar de nosso e de onde ninguém pode nos tirar. Inúmeras vezes eles destacavam o fato de que pagar aluguel significava rasgar dinheiro, algo que você pagava e não retornava nunca. Além disso, vários eram os exemplos de pessoas que compraram suas casas por um valor X e depois de alguns anos as venderam por 3 ou 5 vezes o valor que pagaram, ao passo que os que viviam pagando aluguel não tinham nada. Por isso, o objetivo primordial na vida de qualquer pessoa deveria ser fugir do aluguel e conquistar a casa própria.

Você deve estar se perguntando onde a inflação, o gato escaldado e os meus pais se unem para explicar a decisão de comprar ou alugar um imóvel. Vamos então juntar as peças desse quebra-cabeças e responder uma pergunta anterior importante: Por que os brasileiros gostam tanto de "investir" em imóveis?

Antes do lançamento do plano real em 1994, o Brasil conviveu com taxas de inflação inimagináveis para os dias de hoje. As pessoas tinham que receber seus salários e correr aos super mercados, pois os preços subiam como foguetes. Muitas vezes você estava na gôndola e tinha que ser rápido para conseguir pegar o produto antes que o remarcador de preço chegasse até ele. Não obstante a inflação nas alturas, em 1990 o presidente Collor promoveu um confisco do dinheiro daqueles que aplicavam na poupança. Ou seja, seu dinheiro era atacado de todos os lados.

Com inflação beirando a estratosfera, confisco da poupança, instabilidades econômica, onde seu dinheiro poderia estar seguro? Acertou quem disse em imóveis. Você pode tocar no seu imóvel, ele não está depositado em um banco, onde com apenas um botão alguém possa tomá-lo como fez o presidente Collor. Se você perdesse seu emprego, poderiam te tirar tudo, menos a sua casa. Além disso, o preço dos imóveis tende a se corrigir com a inflação, protegendo o valor real do seu patrimônio. Com isso, os imóveis eram vistos como um porto seguro. Essa ideia de porto seguro ficou tão fortemente enraizada na cultura do brasileiro que mesmo hoje em dia, vivendo em um contexto bastante diferente, ela persiste. Quem viveu e foi escaldado naquela época, tem medo até de água fria independentemente do quadro econômico.

Agora que já sabemos o porque dos brasileiros gostarem tanto de imóveis, vamos avançar e analisar algumas ideias.

Ao deixar de pagar aluguel e financiar um imóvel, estou pagando o que é meu.

Esse é um dos equívocos mais comuns. Ao deixar de pagar aluguel e fazer um financiamento, você deixou de pagar aluguel para uma pessoa ou imobiliária e passou a pagar aluguel para o banco. Apenas uma pequena parcela do valor mensal do seu financiamento é destinada a pagar (amortizar) o valor emprestado de fato. Enquanto você estiver pagando o financiamento, o imóvel não é seu, ele é do banco. Se você ficar inadimplente com o banco, independentemente do número de parcelas que já pagou, você estará sujeito a ser despejado, sua casa será colocada a venda por valor de mercado e muito provavelmente você ficará com uma dívida residual a pagar.

De qualquer forma, quando terminar de pagar o financiamento, serei dono do meu imóvel.

Fato. Após pagar por um financiamento de 30 anos, você terá um imóvel que já tem 30 anos. Na hora de vendê-lo, não fará muito sentido comparar o preço dele com o preço daquela casa novinha que saiu no seu bairro.

Imóvel se valoriza sempre

Essa é uma crença que ganhou força nos últimos 10 anos. Na década de 80 por exemplo, com a hiperinflação, os imóveis em geral perderam valor. Nos últimos anos, com o aumento da renda e principalmente de políticas de estímulo ao crédito, os imóveis se valorizaram muito. Com o fim desse ciclo de expansão, o que se tem visto mais recentemente é um excesso de imóveis e uma pressão negativa sobre os preços.

Vejam no gráfico abaixo como nos últimos 12 meses o preço dos imóveis na cidade de São Paulo tem perdido consistentemente para a inflação (IPCA).




 A valorização dos imóveis depende principalmente da conjuntura econômica do país, do nível de renda das pessoas e da política de concessão de crédito. Valorização passada não serve como base para garantir valorização futura.

Vou financiar um imóvel, alugá-lo e pagar as parcelas com o aluguel que receber.

Isso se chama alavancagem, seria muito bom se não oferecesse grandes riscos e principalmente se não fosse ilegal. Ao fazer um financiamento residencial, pressupõe-se por contrato que ele seja usado para moradia do contratante. Ao alugar esse imóvel, você está colocando o inquilino sobre um grande risco - muitas vezes sem avisá-lo. É fácil saber porque isso é ilegal, vamos considerar que você fique sem pagar o financiamento e o banco queira retomar o imóvel, é o seu inquilino que será despejado. Você que usou o dinheiro do aluguel dele para tudo menos para pagar as parcelas do financiamento - o que não torna o ato menos ilegal - estará duplamente encrencado, com ele e com o banco.

Um imóvel vai me garantir uma vida tranquila.

Isso depende de tantos fatores, que qualquer resposta direta é puro chute. Se você é jovem, tem um rendimento médio baixo, provavelmente o financiamento de um imóvel irá lhe privar de muitas coisa, como por exemplo: pagar uma pós-graduação (e ganhar um salário maior), pagar um curso de inglês, sair aos finais de semana com amigos ou companheira(o), pagar uma boa escola para os seus filhos, mudar-se de cidade para aproveitar uma melhor oportunidade de emprego (não se vende um imóvel tão fácil e não se transfere um financiamento tão fácil também).

O imóvel não pode ser considerado um substituto para uma reserva financeira, pois caso você precise de dinheiro em caráter emergencial, será obrigado a ofertá-lo por um preço mais baixo do que conseguiria se tivesse mais tempo. Ter um imóvel e não ter um bom plano de saúde também é arriscar demais. Pois caso você tenha um problema de saúde mais grave, os gastos com o tratamento podem lhe obrigar a vender o imóvel por um preço bem abaixo do esperado. Se você for a única fonte de recursos financeiros para a sua família, haverá mais um agravante, pois caso você venha a falecer ou sofrer um acidente que o impossibilite de continuar ganhando essa renda, seu imóvel será uma das únicas alternativas que restará a sua família para levantar algum dinheiro e continuar sobrevivendo.

Se a compra do imóvel, porém, for encarada como um investimento e houver uma significativa valorização que compense os riscos, então é possível que isso lhe garanta um considerável aumento de patrimônio. Infelizmente, o cidadão comum tem poucas ferramentas para fazer uma análise apurada de oportunidade de investimento em imóveis, ficando quase sempre a merce de palpites.

Chega de blá-blá-blá e vamos para um exemplo prático.

Vamos financiar uma casa nova de R$ 250 mil. Escolhi o Banco do Brasil porque tem um simulador mais completo que o da Caixa e taxa de juros é bem próxima. Vamos juntar todas as nossas economias e dar 15% de entrada, ou seja R$ 37,5 mil. Financiando R$ 212,5 mil em 360 meses.

A primeira coisa a saber é que a maioria dos financiamentos de imóveis utilizam o sistema de amortização conhecido como SAC - Sistema de Amortização Constante. O que isso quer dizer? Quer dizer que dentro da parcela, haverá um valor fixo que irá efetivamente abater a dívida que você tem com o banco. Além disso, no sistema SAC as parcelas vão diminuindo de valor com o tempo.

Vamos acompanhar como ficou a simulação no banco do Brasil. Vou mostrar a tabela até o segundo ano para não ficar muito extensa. A taxa de juros efetiva no momento da simulação foi de 9,83% ao ano.


Financiamento pelo BB


Vamos compor a parcela do financiamento, lembrando que aqui estão demonstrados apenas 24 meses, e esse financiamento é de 360 meses. Dos R$ 2.225,57 da primeira parcela, R$ 590,27 vão para abater a sua dívida (Só isso? Sim, só isso durante 360 meses). R$ 1,14 é da Taxa Referencial apurada pelo Banco Central. R$ 1564,06 são de juros. R$ 25,71 de seguro por morte e invalidez permanente, R$ 19,39 é o seguro por danos físicos ao imóvel e R$ 25 é referente a tarifa de administração que o banco cobra pelo seu financiamento.

Aquela história de estar pagando o que é seu começa a descer meio quadrado não é? Você de fato está pagando R$ 590,27 para abaixar a sua dívida com o banco. Toda a diferença, R$ 1.635,30, você está pagando de "aluguel" para o banco. Mas as parcelas vão diminuindo, logo estarei pagando uma parte bem menor para o banco, não é verdade? Em partes. Depois de 20 anos, sua parcela será de R$ 1.843,48. Tirando o R$ 590,27 que você amortiza da sua dívida, você ainda estará pagando um aluguel ao banco de R$ 1.253,21.

Ao final dos 360 meses (30 anos), por quanto saiu a sua casa de R$ 250 mil? O valor final pago foi de R$ 694.129,98 de parcelas + R$ 37.500,00 de entrada = Total de R$ 731.629,98. A grande pergunta agora é, quanto (se tudo der certo) valera essa casa ao fim desse período? Vamos imaginar que a casa em média acompanhou a inflação durante esses 30 anos e que ela foi em média de 4,5% ao ano. Ela então valeria R$ 936.393,55.

O que muitas pessoas costumam dizer é que pagaram R$ 250 mil na casa e hoje ela vale R$ 936 mil. Na verdade, o valor pago foi de R$ 731 mil.

E se em vez de fazer um financiamento, eu poupasse a diferença entre a prestação e o aluguel? Vamos supor que eu pagasse R$ 1.000,00 de aluguel e poupasse os outros R$ 1.000,00, depositando-os na poupança todo mês, onde já estariam depositados os R$ 37.500,00 que eu iria dar de entrada no financiamento. Com um rendimento de 0,6434% ao mês, eu teria os R$ 250.000,00 em 116 meses, ou 9 anos e 8 meses.

Se você pensou: Mas o imóvel que custava R$ 250.000,00 hoje, não vai custar o mesmo valor daqui a 9 anos e 8 meses. Isso é verdade, mas uma coisa é você ter R$ 250.000,00 para dar de entrada em um financiamento e outra coisa muito diferente é você ter R$ 37,500,00 ou até menos. Além disso, o rendimento da poupança é bastante conservador, com um pouco de esforço você pode conseguir um rendimento maior que fará toda a diferença, graças a mágica dos juros compostos que estarão a seu favor. Se em vez de 0,6434% ao mês, você conseguir 0,90% ao mês (muito fácil hoje em dia) o tempo para juntar R$ 250.000,00 cai para 8 anos e 4 meses.

Além do mais, o reajuste anual do aluguel que você paga pode ser negociado para que fique abaixo da inflação, se a empresa que você trabalha não ajusta o seu salário de acordo com a inflação, porque permitir sem lutar que o seu aluguel seja?

Considerações finais

Decidir pelo financiamento precoce do imóvel ou pela poupança para a compra a vista ou para um financiamento mais suave é algo que não tem nada de simples. Além de exigir um esforço coordenado entre disciplina e conhecimento financeiro, pensar sobre isso nos coloca diante de dilemas e julgamentos, principalmente por parte dos nossos familiares. Crescemos ouvindo de nossos pais e amigos como é importante ter a casa própria o mais rápido possível, que pagar aluguel é jogar dinheiro fora e assim por diante.

Em países onde as taxas de juros apresentam alguma decência esses dilemas são mais fáceis de serem resolvidos. Mas aqui no Brasil, a escolha errada sobre o que fazer nesse sentido pode lhe custar dezenas de anos da sua vida em forma de privações. Boa parte de todos os recursos que uma pessoa gera durante seu período economicamente ativo no mercado de trabalho acaba sendo transferido para os bancos em forma de juros e taxas, disfarçados sobre o manto da realização de um sonho, seja o da casa própria, seja o do carro, para citar dois dos mais relevantes.

Espero que esse post o tenha ajudado a refletir sobre esses dilemas e colabore para uma conquista mais saudável do seu imóvel . Para finalizar, gostaria de lembrá-los que no nosso Brasil, os juros são uma faca de dois gumes, se eles estão a seu favor você está no céu, mas se eles estiverem contra você....




sábado, 17 de outubro de 2015

POR QUE TUDO É TÃO CARO NO BRASIL?


Todo grande lançamento da Apple, gigante da tecnologia, é a mesma coisa, pessoas costumam acampar em frente as lojas para poderem colocar as mãos em seus objetos de desejo o quanto antes. Com a chegada do Apple Watch no Brasil, foi diferente. Ao abrir as portas as 10 da manhã, a loja da Apple do Shopping Morumbi não encontrou mais que 10 pessoas fazendo fila, das quais, 6 estavam lá para outras questões que não a compra do relógio, conforme matéria do jornal Valor Econômico.

Além de não ser nenhum divisor de águas - como é esperado que todo lançamento da Apple seja - e ter alguns concorrentes de peso no mercado de relógios inteligentes, o preço do dispositivo tem sua significativa parcela de culpa na baixa procura. O modelo da foto acima custa US$ 599,00 dólares nos EUA. Enquanto no Brasil, o mesmo relógio sai por R$ 4.999,00 reais. É claro que se você tiver o dinheiro para o pagamento a vista, leva um belo desconto e ele sai por R$ 4.499,10 reais. Ficou bem melhor não ficou? Pois é, não ficou.




Na figura acima temos o exemplo do Playstation 4. Nos EUA ele custa cerca de US$ 349,99 dólares. Ao desembarcar no Brasil em 2013 ele chegou aqui pela bagatela de R$ 3.999 reais. Isso sem contar que a cotação do dólar por real era muito menor do que é hoje. Com a produção do vídeo game no Brasil, o preço se reduziu, porém, ainda é um dos mais caros do mundo.

Então de quem é a culpa por preços tão altos no Brasil? Se você respondeu: dos impostos, tirou 9 na prova. Os impostos as vezes revezam o protagonismo com as altas margens de lucros que nós brasileiros aceitamos pagar.

Vamos ver o caso do PlayStation 4 de R$ 3.999 reais que chegou no Brasil em 2013. Diz o ditado, que Deus criou o céu e a terra, e que todo o restante é feito na China. A chance de que seus aparelhos eletrônicos sejam fabricados na China ou sejam montados no Brasil com componentes chineses é bastante elevada. A Sony, na ocasião, disse que o console chegava ao porto brasileiro por US$ 390 dólares. Com o dólar beirando 2,20 reais/dólar, seriam R$ 850,00 reais.

É agora que a mágica começa a acontecer. Ao desembarcar no porto, incide o primeiro imposto, que é o Imposto de Importação (II), para esse produto a alíquota é de 20% (R$ 171,60). Agora vem o Imposto sobre Produtos Industrializados, que nesse caso é de 50%. Você deve se perguntar, 50% sobre os R$ 850,00? Não dessa vez, sobre os R$ 858,00 mais os R$ 171,60 de (II). Pode isso Arnaldo? Sim, nós somos brasileiros e não desistimos (de tributar) nunca. Até agora ficamos assim R$ 850 + R$ 171,60 + 0,5*(850+171,60) ==> O preço já está em R$ 1.544,40 e ele ainda está longe de chegar nas lojas.

Acabou? Calma, não chegamos nem na metade! Agora é a vez dos impostos PIS e COFINS sobre importação. Esses incidem sobre o valor original de R$ 850,00. Juntos, esses impostos possuem alíquotas de 9,25%. Ficamos com (R$ 850)*0,0925 ==> R$ 79,37 de PIS e COFINS.

Agora acabou? Mais calma, de onde você acha que governo tira o dinheiro para os hospitais de primeiro mundo que temos, para as escolas padrão "internacional" que os seus filhos estudam, para a segurança de dar inveja a qualquer suíço e para as estradas conservadas e sem pedágios que tanto nos orgulhamos? Dizer que estou sendo irônico seria o mesmo que explicar piada.

Vamos agora ao ICMS, o imposto estadual mais relevante para o financiamento dos estados. Usando o estado de São Paulo, a alíquota para o PlayStation 4 é 25% sobre o valor do porto mais todos os impostos. Temos então que o o ICMS é igual a ((858+171,60+514,80+14,16+65,21)/0,75)*25% = ICMS de R$ 541,26.

Agora o produto já pode entrar no caminhão e ir para a distribuidora da Sony, que vai revendê-lo para as grandes lojas, onde você irá comprá-lo. O produto que chegou por R$ 858 reais, já recebeu R$ 1.307,03 de impostos até agora.  

O custo do produto para o distribuidor Sony é de R$ 1.029,60, pois o ICMS, IPI, PIS e COFINS não são contabilizado como custo, o que foi pago desses impostos será utilizado como crédito que abaterá os impostos a serem pagos no momento da venda, do contrário, haveria pagamento em duplicidade. A Sony tem uma margem de lucro de 20% ao vender o produto para uma grande loja, como as Lojas Americanas por exemplo. Para ter essa margem, ela parte de um preço líquido de R$ 1.287,00, que ao aplicar os 20% dá R$ 257,40. A soma do custo R$ 1029,60 mais a margem de R$ 257,40 é igual ao preço líquido de R$ 1.287,00

A partir desse preço, começa a penúltima rodada de impostos. Então vamos as somas: Preço de R$ 1.287.00 + ICMS de R$ 489.35 + PIS de R$ 32,30 + COFINS de R$ 148,76 + IPI de R$ 978,71 + ICMS Substituição Tributária de R$ 490,87. As Lojas Americanas pagam então pelo PlayStation 4 R$ 3.426,99.

Já está acabando, o cálculo, não a carga tributária. O varejista (Lojas Americanas) aplica uma margem de lucro de 16% sobre o custo de R$ 3.245,93 (R$ 3.426,99 menos PIS menos COFINS). Partindo de um preço líquido de venda de R$ 3.864,20. 

Estamos quase lá...Agora para o produto chegar as suas mãos, incidem PIS e COFINS de R$ 70,26 e R$ 323,61 respectivamente. Dando um preço final ao cliente de R$ 4.258,08. Como a Sony sugere um preço máximo de R$ 3.999,00 o varejista dá um desconto de R$ 258,09. E o Playstation chega até você pelo honestíssimo preço de R$ 3.999,00. 

Um americano ganhando salário mínimo precisou trabalhar cerca de 5 dias e meio para comprar um PS4. Enquanto um trabalhador brasileiro ganhando salário mínimo precisou trabalhar 162 dias em 2013 para comprar o mesmo video game. 66% do preço do Playstation 4 em 2013 no Brasil eram impostos. Com a margem de lucro que resta, a Sony precisa pagar funcionários, fretes, energia elétrica, e mais uma infinidade de despesas. E nós sabemos que no Brasil a energia é barata, as estradas são ótimas, não há roubo de carga que encareça frete, o combustível é super barato, enfim, vivemos em um paraíso...sendo irônico novamente.

Quer dizer que as empresas operam com baixas taxas de lucro e os impostos é que são responsáveis por esses preços absurdos? Não necessariamente.

Vamos usar o exemplo do relógio da Apple, do início do post, para demonstrar um outro grave problema da população brasileira. O preços dos produtos da Apple no Brasil extrapolam os limites do absurdo. Mesmo a elevada carga tributária é insuficiente para justificá-los. O mal está na busca por Status.

O Brasil é um país muito desigual. Aqui, um recepcionista de hotel ganha dezenas de vezes menos que um médico. Em muito países desenvolvidos e alguns nem tanto, isso não acontece. Portanto, o preço alto, muitas vezes é o principal motivo por que alguém queira comprar um produto aqui. Com isso cria-se um sentimento de distinção de classe. É como se quem pudesse comprar um Iphone fosse rico e quem não pudesse fosse pobre. 

Isso é muito visível no nosso mercado automotivo. Por ser um país muito desigual, o carro é um símbolo de status, de distinção social, enquanto em outros países um carro nada mais é do que um meio de transporte muitas vezes indispensável. A indústria automotiva se aproveita disso para nos cobrar preços irreais por carros que nem ao menos são aceitos em outros mercados por conta de sua baixa qualidade e falta de segurança.

Outro exemplo são roupas. No Brasil as pessoas procuram se diferenciar pelas roupas que usam. Camisas da Tommy, Calças da Levis, Camisetas Calvin Klein, etc. Muitos chegam a se enterrar em prestações para adquirir essas peças por preços que chocariam qualquer pessoa em outro lugar do mundo. Nos EUA por exemplo, roupas da Levis são vendidas em supermercados, em bacias, onde ao se levar 4, paga-se apenas 3, com preço unitário por volta de 12 dólares. Roupas da Tommy são vendidas em outlets por preços infinitamente menores que aqui, os preços também são decrescentes quanto maior o número de peças adquiridas. 

Esses nossos hábitos de consumo são ridicularizados em todas as partes do mundo. Mas enquanto tivermos os políticos que temos, o descaso com a educação e a desigualdade que temos, continuaremos sendo piada no exterior.












quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ONDE INVESTIR MEU DINHEIRO? PARTE 2




       
       Olá pessoal, agora que já vimos na parte I que não perder dinheiro é o passo mais importante para começar a investir, vamos avançar um pouco e falar de algumas armadilhas quando se trata de investir o seu dinheiro. Quer aprender como evita-las? Confira!

CUIDADO COM O AMIGO DA ONÇA

Vá a uma concessionaria de automóveis qualquer, diga que você está com uma grana sobrando e pergunte ao vendedor qual seria o carro ideal para você. Diga a ele que você é solteiro (a), que não tem filhos, que vai usar o carro apenas para ir ao trabalho que fica a 2 km da sua residência e que ocasionalmente irá ao mercado fazer compras para a semana.

Não se espante se ele te oferecer um sedan de luxo que estaciona sozinho, tem 400 cavalos de potência (e faz 4 km/litro) e que só de seguro, manutenção e abastecimento vai te custar um carro popular por ano. Mas o que isso tem a ver com investimentos? Tudo!

Sempre que você procurar orientação de investimentos com um “vendedor” - que geralmente é comissionado - muito provavelmente ele irá lhe oferecer uma opção que é mais vantajosa para ele do que para você. Em uma negociação, o ideal seria que ambos saíssem ganhando, mas no mundo real, é em benefício do que possui maior conhecimento que os ventos costumam soprar. Não estou dizendo que todo vendedor tentará te enganar, eu conheço ótimo vendedores, mas caso um deles tente, é melhor estar preparado.

Um exemplo clássico de vendedor comissionado é o gerente do seu banco. Isso mesmo, aquela pessoa a quem você recorre quando quer saber onde investir as suas economias.

Já ouviu falar em um “investimento” chamado Título de Capitalização, mais conhecido pelos seus nomes comerciais Ourocap (Banco do Brasil), PIC (Itaú), Capsorte (Santander), etc? Se eles ainda não foram oferecidos a você pelo seu gerente, certamente um dia serão.

Muitas vezes comparados com a poupança tradicional, esses títulos nem se quer podem ser chamados de investimento. Trata-se de uma modalidade onde geralmente após um período de aplicação você recebe o mesmo valor que depositou, isso quando recebe o valor total, o que significa que durante todo esse período seu dinheiro ficou parado, sem receber juros e sem ser corrigido pela inflação. 

Os títulos de capitalização são comparáveis a bilhetes de loteria, com a diferença que você recebe depois de um tempo o dinheiro que depositou, sem correção alguma. Ou seja, o título de capitalização só é vantajoso para quem ganha os prêmios, e as chances de isso acontecer são bem mínimas. Ah, já ia me esquecendo, se você pensar em retirar o seu dinheiro antes do prazo estabelecido, prepare-se para ser punido.

Não é difícil concluir que pegar o seu dinheiro, não pagar nada por ele depois de um longo período de tempo é o sonho de qualquer banco. E os gerentes que conseguem tornar esse sonho realidade são premiados por isso. Cada cliente que adere a essas modalidades de “investimento” coloca o gerente da agência mais próximo do bônus.

Essas armadilhas estão mais presentes do que possamos imaginar. Seja o seu gerente tentando lhe vender algum investimento que não lhe trará retorno algum, seja o seu concessionário tentando lhe vender um carro que lhe trará mais despesas do que retornos, seja o seu corretor querendo lhe vender aquela casa que nos próximos anos ele jura que vai triplicar de valor, enfim, todos querem um pedaço do seu dinheiro e apenas o conhecimento poderá lhe garantir a melhor escolha.

Se você tem um dinheiro sobrando e não sabe o que fazer com ele, meu conselho é: Não faça nada, pelo menos até saber. Enquanto isso, deixe o dinheiro na velha caderneta de poupança. Ela não cobra imposto de renda sobre os rendimentos e você pode sacar o seu dinheiro a qualquer momento (lembrando que se antes dos 30 dias de investimento do montante, você não recebe os rendimentos). Além do mais, você está acompanhando o blog Via Economia, não vai demorar para conseguir decidir o que é melhor para você :-).

No Brasil, investir em educação financeira é a aplicação com retorno mais garantido que se pode obter. Em poucos países do mundo é possível ganhar tanto dinheiro no mercado financeiro com tão pouco risco quanto no Brasil. Para se ter uma ideia, muitas aplicações, além de pagarem juros altíssimos, contam com uma garantia chamada de Fundo Garantidor de Crédito, que garante o seu investimento até R$ 250 mil em caso de falência da instituição financeira.

O contrário também é verdadeiro. Em poucos países do mundo é tão fácil fazer o seu dinheiro escorrer pelo ralo como no Brasil. As taxas de juros cobradas em financiamentos são exorbitantes, multiplique o número de parcelas do financiamento do seu carro, da sua casa e veja quantas vezes esses bens irão lhe custar efetivamente.

Por que os juros brasileiros são tão altos? Bom, aí já é assunto para um próximo post, quando trataremos de alternativas a poupança. Não percam.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

ONDE INVESTIR O MEU DINHEIRO? PARTE 1






Olá pessoal, obrigado por acompanharem o blog Via Economia.

Nessa primeira parte, vamos começar com o básico para responder a seguinte questão: Onde investir o meu dinheiro? 

Poupar e investir só faz sentido se você tem um propósito, seja ele comprar uma casa, fazer aquela viagem dos seus sonhos, alcançar a independência financeira, ter uma velhice tranquila, proporcionar uma boa educação aos seus filhos, estudar, enfim.

Mais importante do que saber onde investir o seu dinheiro, é saber como não perder dinheiro. É sobre isso que vamos falar hoje.

NÃO PERCA DINHEIRO

Nada é mais fácil no mundo hoje em dia do que perder dinheiro. A TV por assinatura com 300 canais, que você só assiste 5; a internet de 20 Mbps que você só usa para acessar o Facebook e ler e-mails; a roupa que você comprou em 10x e está guardada para uma ocasião especial; assinatura de revistas, anuidade de cartões, entre outras. Todas essas coisas que adquirimos além das nossas necessidades colaboram para que não tenhamos dinheiro para investir e muitas vezes nem mesmo para fazermos outras coisas que gostamos. De tempos em tempos, faça uma revisão dos seus gastos e questione-se se todos são realmente necessários.

Para não perder dinheiro, é preciso ser sem vergonha! Calma, eu explico. Muitas pessoas morrem de vergonha de pedir descontos em suas compras. Pensam nessa atitude como algo humilhante. A verdade é que pedir desconto é um sinal de inteligência financeira.

O Brasil conviveu por muitos anos com taxas de inflação (aumento sistemático dos preços) inimagináveis para os dias de hoje. Em um único mês de 1990 por exemplo, a inflação foi de 82,39%. Isso mesmo, em apenas um mês. Para se ter uma ideia, a inflação do mês de agosto de 2015 ficou em 0,22%. Em 1994, com o plano real, a inflação foi finalmente controlada, o que não significa que deixou de existir.

Mesmo com o fim da hiperinflação, velhos hábitos são difíceis de serem esquecidos, a desconfiança em uma possível volta da inflação teima em persistir.  Com isso, muitos lojistas embutem em seus preços uma correção para compensar a inflação. Ou seja, mesmo no preço que você vê na loja como “à vista” está incidindo uma correção de inflação e muitas vezes juros, sim, juros mesmo em uma compra à vista.

Por isso, sempre que for pagar à vista, peça desconto. Nunca acredite naquela história de que o preço à vista é igual ao preço em 10 vezes sem juros. Não existe financiamento sem juros, nem aqui, nem na China.

 Quanto pedir de desconto? No mínimo um pouco mais que o rendimento de uma aplicação financeira como a poupança. A ideia aqui é, você precisa ganhar um desconto maior ao que você receberia de juros se deixasse seu dinheiro investido. Vamos a um exemplo prático:

Um celular custa R$ 1.200,00 a vista. O lojista me propõe pagar em 10 vezes de R$ 120,00 sem juros. Pergunto a ele se a canonização já foi confirmada para ele fazer um milagre tão grandioso quanto me financiar algo sem juros. Ele então me oferece 10% de desconto para o pagamento a vista. Devo aceitar? Vamos ver, o verdadeiro valor à vista do celular é R$ 1.080,00 (os R$ 1.200,00 menos os R$ 120,00 do desconto). Com isso, parcelar em 10 vezes de R$ 120,00 significa pagar um juro mensal de 1,96%. Se eu colocasse esse dinheiro na poupança, receberia por volta de 0,60% ao mês. Ou seja, devo aceitar o desconto e pagar à vista, já que o ganho é muito maior que deixar o dinheiro investido.

Quer ganhar ainda mais desconto? Se você tem algum amigo vendedor, pergunte a ele como funciona esse tal negócio de bater meta de vendas! Todo mês, o vendedor tem uma meta de vendas a atingir. Quando vai se aproximando o final do mês, a pressão pelo atingimento da meta aumenta, com isso, muitas vezes, o vendedor estará disposto a dar um desconto maior a fim de ganhar a venda. Isso vale para praticamente todo tipo de negócio, de material para construção a automóveis. 

Mesmo que não haja uma pressão por metas, pense no seguinte: é melhor o lojista lhe conceder um desconto maior e não precisar pegar dinheiro emprestado do banco para as despesas do dia a dia, o chamado capital de giro, que é muito mais caro. Faça seu dinheiro valer cada centavo, ele é fruto do seu esforço diário.

Não ostente um padrão de vida que não é condizente com o seu nível de renda. Uma das formas mais garantidas de perder dinheiro é querer parecer ser uma coisa que não somos. A fim de se sentirem aceitas e admiradas, muitas pessoas se endividam comprando roupas de grifes, eletrônicos supérfluos, joias e carros que não podem pagar, ou que lhes trarão sérias restrições. Quem não conhece alguém que para poder pagar o carro não pode nem comer um cachorro quente na barraca da esquina? 

A ideia aqui não é deixar de fazer e comprar as coisas que você gosta, pelo contrário, é garantir que o consumo de certos bens e serviços não lhe privem disso.

Não pague juros. O Brasil é um dos países com as maiores taxas de juros do mundo. Um carro de R$ 30 mil, pode sair facilmente por R$ 60 mil em apenas 5 anos. Um imóvel integralmente financiado pode lhe custar 3 ou 4 vezes o preço anunciado. Dívidas no cartão de crédito mais do que dobram o seu valor a cada ano. Sempre que um financiamento for inevitável, negocie a taxa e o faça no menor prazo possível, procure poupar a maior quantia possível para dar como entrada.

Por hoje é só pessoal, no próximo post vamos falar sobre o risco de confiar naquela aplicação que o gerente do seu banco diz que é ótima, além de compararmos algumas opções de investimentos. Um grande abraço a todos. Deixem suas dúvidas, comentários ou sugestões e até o próximo encontro.