sábado, 17 de outubro de 2015

POR QUE TUDO É TÃO CARO NO BRASIL?


Todo grande lançamento da Apple, gigante da tecnologia, é a mesma coisa, pessoas costumam acampar em frente as lojas para poderem colocar as mãos em seus objetos de desejo o quanto antes. Com a chegada do Apple Watch no Brasil, foi diferente. Ao abrir as portas as 10 da manhã, a loja da Apple do Shopping Morumbi não encontrou mais que 10 pessoas fazendo fila, das quais, 6 estavam lá para outras questões que não a compra do relógio, conforme matéria do jornal Valor Econômico.

Além de não ser nenhum divisor de águas - como é esperado que todo lançamento da Apple seja - e ter alguns concorrentes de peso no mercado de relógios inteligentes, o preço do dispositivo tem sua significativa parcela de culpa na baixa procura. O modelo da foto acima custa US$ 599,00 dólares nos EUA. Enquanto no Brasil, o mesmo relógio sai por R$ 4.999,00 reais. É claro que se você tiver o dinheiro para o pagamento a vista, leva um belo desconto e ele sai por R$ 4.499,10 reais. Ficou bem melhor não ficou? Pois é, não ficou.




Na figura acima temos o exemplo do Playstation 4. Nos EUA ele custa cerca de US$ 349,99 dólares. Ao desembarcar no Brasil em 2013 ele chegou aqui pela bagatela de R$ 3.999 reais. Isso sem contar que a cotação do dólar por real era muito menor do que é hoje. Com a produção do vídeo game no Brasil, o preço se reduziu, porém, ainda é um dos mais caros do mundo.

Então de quem é a culpa por preços tão altos no Brasil? Se você respondeu: dos impostos, tirou 9 na prova. Os impostos as vezes revezam o protagonismo com as altas margens de lucros que nós brasileiros aceitamos pagar.

Vamos ver o caso do PlayStation 4 de R$ 3.999 reais que chegou no Brasil em 2013. Diz o ditado, que Deus criou o céu e a terra, e que todo o restante é feito na China. A chance de que seus aparelhos eletrônicos sejam fabricados na China ou sejam montados no Brasil com componentes chineses é bastante elevada. A Sony, na ocasião, disse que o console chegava ao porto brasileiro por US$ 390 dólares. Com o dólar beirando 2,20 reais/dólar, seriam R$ 850,00 reais.

É agora que a mágica começa a acontecer. Ao desembarcar no porto, incide o primeiro imposto, que é o Imposto de Importação (II), para esse produto a alíquota é de 20% (R$ 171,60). Agora vem o Imposto sobre Produtos Industrializados, que nesse caso é de 50%. Você deve se perguntar, 50% sobre os R$ 850,00? Não dessa vez, sobre os R$ 858,00 mais os R$ 171,60 de (II). Pode isso Arnaldo? Sim, nós somos brasileiros e não desistimos (de tributar) nunca. Até agora ficamos assim R$ 850 + R$ 171,60 + 0,5*(850+171,60) ==> O preço já está em R$ 1.544,40 e ele ainda está longe de chegar nas lojas.

Acabou? Calma, não chegamos nem na metade! Agora é a vez dos impostos PIS e COFINS sobre importação. Esses incidem sobre o valor original de R$ 850,00. Juntos, esses impostos possuem alíquotas de 9,25%. Ficamos com (R$ 850)*0,0925 ==> R$ 79,37 de PIS e COFINS.

Agora acabou? Mais calma, de onde você acha que governo tira o dinheiro para os hospitais de primeiro mundo que temos, para as escolas padrão "internacional" que os seus filhos estudam, para a segurança de dar inveja a qualquer suíço e para as estradas conservadas e sem pedágios que tanto nos orgulhamos? Dizer que estou sendo irônico seria o mesmo que explicar piada.

Vamos agora ao ICMS, o imposto estadual mais relevante para o financiamento dos estados. Usando o estado de São Paulo, a alíquota para o PlayStation 4 é 25% sobre o valor do porto mais todos os impostos. Temos então que o o ICMS é igual a ((858+171,60+514,80+14,16+65,21)/0,75)*25% = ICMS de R$ 541,26.

Agora o produto já pode entrar no caminhão e ir para a distribuidora da Sony, que vai revendê-lo para as grandes lojas, onde você irá comprá-lo. O produto que chegou por R$ 858 reais, já recebeu R$ 1.307,03 de impostos até agora.  

O custo do produto para o distribuidor Sony é de R$ 1.029,60, pois o ICMS, IPI, PIS e COFINS não são contabilizado como custo, o que foi pago desses impostos será utilizado como crédito que abaterá os impostos a serem pagos no momento da venda, do contrário, haveria pagamento em duplicidade. A Sony tem uma margem de lucro de 20% ao vender o produto para uma grande loja, como as Lojas Americanas por exemplo. Para ter essa margem, ela parte de um preço líquido de R$ 1.287,00, que ao aplicar os 20% dá R$ 257,40. A soma do custo R$ 1029,60 mais a margem de R$ 257,40 é igual ao preço líquido de R$ 1.287,00

A partir desse preço, começa a penúltima rodada de impostos. Então vamos as somas: Preço de R$ 1.287.00 + ICMS de R$ 489.35 + PIS de R$ 32,30 + COFINS de R$ 148,76 + IPI de R$ 978,71 + ICMS Substituição Tributária de R$ 490,87. As Lojas Americanas pagam então pelo PlayStation 4 R$ 3.426,99.

Já está acabando, o cálculo, não a carga tributária. O varejista (Lojas Americanas) aplica uma margem de lucro de 16% sobre o custo de R$ 3.245,93 (R$ 3.426,99 menos PIS menos COFINS). Partindo de um preço líquido de venda de R$ 3.864,20. 

Estamos quase lá...Agora para o produto chegar as suas mãos, incidem PIS e COFINS de R$ 70,26 e R$ 323,61 respectivamente. Dando um preço final ao cliente de R$ 4.258,08. Como a Sony sugere um preço máximo de R$ 3.999,00 o varejista dá um desconto de R$ 258,09. E o Playstation chega até você pelo honestíssimo preço de R$ 3.999,00. 

Um americano ganhando salário mínimo precisou trabalhar cerca de 5 dias e meio para comprar um PS4. Enquanto um trabalhador brasileiro ganhando salário mínimo precisou trabalhar 162 dias em 2013 para comprar o mesmo video game. 66% do preço do Playstation 4 em 2013 no Brasil eram impostos. Com a margem de lucro que resta, a Sony precisa pagar funcionários, fretes, energia elétrica, e mais uma infinidade de despesas. E nós sabemos que no Brasil a energia é barata, as estradas são ótimas, não há roubo de carga que encareça frete, o combustível é super barato, enfim, vivemos em um paraíso...sendo irônico novamente.

Quer dizer que as empresas operam com baixas taxas de lucro e os impostos é que são responsáveis por esses preços absurdos? Não necessariamente.

Vamos usar o exemplo do relógio da Apple, do início do post, para demonstrar um outro grave problema da população brasileira. O preços dos produtos da Apple no Brasil extrapolam os limites do absurdo. Mesmo a elevada carga tributária é insuficiente para justificá-los. O mal está na busca por Status.

O Brasil é um país muito desigual. Aqui, um recepcionista de hotel ganha dezenas de vezes menos que um médico. Em muito países desenvolvidos e alguns nem tanto, isso não acontece. Portanto, o preço alto, muitas vezes é o principal motivo por que alguém queira comprar um produto aqui. Com isso cria-se um sentimento de distinção de classe. É como se quem pudesse comprar um Iphone fosse rico e quem não pudesse fosse pobre. 

Isso é muito visível no nosso mercado automotivo. Por ser um país muito desigual, o carro é um símbolo de status, de distinção social, enquanto em outros países um carro nada mais é do que um meio de transporte muitas vezes indispensável. A indústria automotiva se aproveita disso para nos cobrar preços irreais por carros que nem ao menos são aceitos em outros mercados por conta de sua baixa qualidade e falta de segurança.

Outro exemplo são roupas. No Brasil as pessoas procuram se diferenciar pelas roupas que usam. Camisas da Tommy, Calças da Levis, Camisetas Calvin Klein, etc. Muitos chegam a se enterrar em prestações para adquirir essas peças por preços que chocariam qualquer pessoa em outro lugar do mundo. Nos EUA por exemplo, roupas da Levis são vendidas em supermercados, em bacias, onde ao se levar 4, paga-se apenas 3, com preço unitário por volta de 12 dólares. Roupas da Tommy são vendidas em outlets por preços infinitamente menores que aqui, os preços também são decrescentes quanto maior o número de peças adquiridas. 

Esses nossos hábitos de consumo são ridicularizados em todas as partes do mundo. Mas enquanto tivermos os políticos que temos, o descaso com a educação e a desigualdade que temos, continuaremos sendo piada no exterior.












Um comentário:

  1. Muito bom, Diego! Há anos eu queria entender essa questão dos altos preços. Muito pertinente e esclarecedor. Obrigado!!

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